A
arte não cria mentiras. As representações
e as criações de máscaras acontecem freqüentemente
no nosso cotidiano. A arte é o espaço-tempo onde se
cria realidade e quebram-se as representações. Ela
afirma a vida em sua plenitude, os sentimentos, as alegrias, as
dores, o ridículo do ser humano, revelando o que se passa
despercebido no dia a dia.
A arte não mostra, ela revela. Ela não é um
espelho da sociedade, mas a própria realidade.
A
arte de corporificar idéias, emoções, sentimentos,
de atualizar e presentificar o virtual em realidade física
e vocal, a arte do ser, do estar presente, esta é a Mímica.
Por ser uma arte que trata diretamente do movimento da vida, da
ação, ela existe desde os primórdios da humanidade
e já era encontrada nos ritos primitivos. Ela teve diferentes
fases em seu desenvolvimento, passando por vários gêneros
e estéticas que vão do trágico ao cômico.
Na Mímica Clássica o gênero da pantomima foi
o mais conhecido. Na Moderna, foram a Mímica Corporal Dramática
e a Mímica Subjetiva. A Mímica Contemporânea
é mais conhecida pelo nome de Teatro Físico que tenta
se dissociar da idéia de arte silenciosa (pantomima) e enfatizar
também a mímica vocal, isto é, a corporificação
dos sons do pensamento, da respiração e da Natureza.
O Mímico fala, canta, grita. A mímica dos ritos primitivos
já incorporava gestos e sons. Na Antiguidade os mímicos
gregos e romanos utilizavam falas e textos escritos em suas encenações.
É no gênero da pantomima que não há falas,
onde a narrativa gestual acontece no silêncio.
Por presentificar a vida, a mímica é encontrada nas
mais diversas áreas. Existe a mímica do artista plástico,
do bailarino, do ator tradicional, da vida cotidiana. De fato, onde
há vida há mímica. Pintores e escultores são
mímicos fantásticos. Como dizia Lecoq, “A
habilidade de Picasso de desenhar um touro dependeu dele ter achado
a essência do touro nele mesmo, que liberou as formas dos
gestos em sua mão. Ele fazia mímica. O ato da mímica
é literalmente o de corporificar e, portanto, compreender
melhor”. O bailarino ao corporificar uma sensação
na ação dançada está fazendo mímica,
assim como o ator de teatro tradicional que ao corporificar o subtexto
e os monólogos interiores do personagem na ação
física e vocal, pratica a mímica. Os nossos gestos
cotidianos e expressões são frutos do ato de corporificação,
ou seja, da mímica. A mímica é uma maneira
de descobrir e redescobrir a vida com um frescor renovado. Quando
alguém nos pede para fazer a mímica de alguma ação
que já se tornou automática em nosso dia a dia, precisamos
nos sensibilizar novamente a todos os detalhes para poder realizá-la.
A ação da mímica se torna um ato de conhecimento.
A Mímica Total enxerga a mímica como
um ato total, que afirma a potência da vida no pensamento,
corpo e voz integrados na figura do ator-performer. É a sua
totalidade que me interessa e não a visão específica
ou purista encontrada nos modernistas e nem num gênero de
estilo, e sim no todo desta arte que torna visível o invisível.
Não me interessa os gêneros mas a arte. A Mímica
Total recebe de braços abertos a Mímica Antiga,
Clássica, Moderna e Contemporânea em sua totalidade
e não em uma visão reducionista e limitante de partes
isoladas. Com isso os vários gêneros são incorporados
e bem-vindos, o tanto que não se desconectem do mais importante
que é a afirmação da vida. É necessário
esclarecer que o todo a que me refiro não é a soma
das partes, pois por mais que somemos as várias partes de
um sistema algo se perde nesse cálculo. O ato total é
artístico, científico e filosófico ao mesmo
tempo.
A Mímica Total é um rompimento radical
com a forma de pensar o corpo como uma máquina compartimentada,
dividida em mente, cérebro e corpo. Ela entende o corpo como
um organismo vivo integrado que interage diretamente com o meio
ambiente, afetando e sendo afetado por ele.
Aqui o corpo não é mais considerado um instrumento
do pensamento, mas o próprio pensamento. O ator da Mímica
Total não possui e controla um corpo, ele é
o seu corpo. Ele não é só uma anatomia com
articulações, tecidos, órgãos, músculos,
mas sim um organismo vivo e afirmativo: o corpo como vontade de
potência.
A Mímica Total é a afirmação
da “arte de ator” e da sua intensa presença.
Quando escrevo “arte de ator” eu relembro Etienne Decroux
que se referia a uma arte que lhe é ontológica, do
ser ator; e não uma arte do ator, pois não lhe pertence,
ele não é o seu dono, mas quem a concebe e realiza.
A genealogia etimológica da palavra, theátron, significa
“o espaço onde se vê”, o edifício.
Portanto teatro é o espaço onde se encontram diversas
artes, literatura, artes plásticas, arquitetura, música
e etc... Quando falamos de teatro como arte, por um vício,
uma deturpação, ou simplesmente um hábito de
linguagem, nos referimos à arte de ator.
Poderíamos retirar o texto literário, os cenários,
os figurinos, a música e até mesmo o edifício
teatral que mesmo assim, restando somente o ator e o expectador,
a arte de ator resiste. E, na sua essência encontra-se a Mímica.
A origem da palavra mímica, vem de mímesis, que é
imitação. Mas não a imitação
feita do plano que se vê, mas daquilo que é intrínseco
à Natureza, que faz a natureza ser natureza, ou seja, a criação.
Por isso a Mímica Total necessita de um
ator-performer que assume a potência que tem em si por ser também
natureza.
Ela rompe drasticamente com o textocentrismo e a sujeição
do teatro à literatura. O mímico - e quando digo mímico
me refiro ao ator-performer - assume o centro da criação
por inteiro, é autor e obra ao mesmo tempo, diferente do
ator-intérprete que inicia o seu trabalho após receber
o seu texto. Aqui, a dramaturgia é entendida como drama
ergon, isto é, o trabalho das ações, o
texto como a tecedura das ações físicas, e
a ação como o próprio corpo/pensamento. A dramaturgia
é a do corpo em vida e não a do texto escrito.
Por que o cantor pode cantar suas composições e letras,
o artista plástico pintar auto-retratos, o escritor escrever
seus próprios pensamentos e somente o ator tem que ficar
atrás de um personagem, interpretar textos e pensamentos
de outros e se restringir a uma hierarquia teatral? Não aceito
a ditadura da escrita na arte de ator.
Por ser o corpo fruto de um acontecimento, de uma força ativa
e indissociavelmente integrado, ele é considerado corpo-pensante,
eliminando, assim, qualquer visão compartimentada, reducionista
e cartesiana.
Entendendo o corpo como o próprio ser, a Mímica
Total afasta-se da representação ficcional
e compreende a sua presença como integrante do ato artístico.
O ator-performer afirma as suas idiossincrasias e o seu ser na persona
e não na identificação com a personagem de
uma obra. Na construção da persona, ele rompe com
a dualidade ficção/realidade e, com isso, o ator-performer
se serve das personagens para fortalecer a expressão de seus
pensamentos, de suas indignações e não para
ficar atrás delas e se anular através de uma tentativa
de encarná-las.
É Total porque integra criação e obra, razão
e emoção, mente e corpo, indivíduo e coletivo,
visível e invisível. É Mímica porque
é corporificação, é afirmação
de um acontecimento, é ação, é criação,
é vida.
Luis
Louis
