Grandes
colaboradores: Artaud, Meyerhold e Grotowski
Antonin Artaud
Artaud,
em seu primeiro manifesto do Teatro da Crueldade, critica a forte
sujeição do teatro ao texto. Dizia que era necessário
encontrar uma espécie de linguagem única, a meio caminho
entre o gesto e o pensamento, que quebrasse com o condicionamento
intelectual da escrita. Sem especificar esta linguagem, aposta que
é a partir dela que se dissolverá a velha dualidade
entre autor e ator. Quanto às obras, explica:
Não
representaremos obras escritas mas em torno de temas, fatos ou obras
comuns, tentaremos uma encenação direta. (ARTAUD,
1999:112)
Quando
diz que não encenaria obras escritas, explica melhor mais tarde,
em suas cartas, sobre a linguagem, que não encenaria peças
baseadas na escrita ou na palavra, pois haveria, em seus espetáculos,
uma parte física preponderante que não poderia ser fixada
na escrita da linguagem habitual das palavras. Dizia também
que mesmo a palavra falada teria um sentido novo. Em seu segundo manifesto
do Teatro da Crueldade, Artaud ataca, ainda mais forte, a sujeição
do teatro ao texto escrito. Ele diz:
Com
isso, renunciaremos à superstição teatral do
texto e à ditadura do escritor.
E assim encontraremos o velho espetáculo popular traduzido
e sentido diretamente pelo espírito, sem as deformações
da linguagem e os escolhos do discurso e das palavras. (ARTAUD,
1999:145)
Para
Artaud, a escrita e a palavra não pertencem, especificamente,
à cena, mas sim ao livro. O ator deveria ser um atleta do coração,
com uma musculatura afetiva que correspondesse às localizações
físicas dos sentimentos. Apesar de não ter especificado
os meios de se produzir este ator, Artaud se impressionou demais com
a força da mímica do Teatro de Bali. Ao assistir a este
espetáculo pela primeira vez, comentou:
(...)
Mímica de gestos espirituais que escandem, podam, fixam, afastam
e subdividem sentimentos, estados de alma, idéias metafísicas.
Esse teatro de quintessência onde as coisas realizam estranhas
meias voltas antes de voltar a abstração. (ARTAUD,
1999:71)
A mímica,
que Artaud tanto admirou no teatro de Bali, aproximava-se da idéia
da mímica subjetiva de Decroux, que representa os sentimentos
e não histórias ilustrativas. Ainda que Decroux e Artaud
se diferenciem na formulação de muitas concepções,
quando afirmam suas idéias sobre a ditadura do texto no teatro
Europeu parecem compartilhar do mesmo pensamento em relação
à dependência do teatro ao texto escrito. Quando Decroux
fala que o ator deve ter o corpo de um ginasta com o pensamento de
um poeta, remete-nos, diretamente, ao termo atleta do coração
usado por Artaud (1999:151).
Apesar
do seu Teatro da Crueldade não ser baseado na arte da mímica,
Artaud certamente tornou-se uma forte referência posterior para
o pensamento da Mímica Contemporânea.
Vsévolod Meyerhold
É
importante notar que a valorização do papel do ator
na criação e a batalha contra a ditadura do texto não
foram características isoladas do movimento francês.
Na Rússia, Vsévolod Meyerhold (1894-1940), desde 1905,
ainda no Teatro-Estúdio, sob orientação de Constantin
Stanislavski (1863-1938), refletiu profundamente
sobre o papel do ator em sua pesquisa, até o final de sua vida.
Ele partia do princípio de que o trabalho do ator nasce do
movimento.
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| Meyerhold
na seqüência de biomecânica “atirando a
flecha” (foto sem referência de autoria). Christian
M. Schmocker em 1975. |
Negando
o naturalismo que foi proposto, principalmente, na primeira fase do
trabalho de Stanislavski no Teatro de Arte de Moscou, Meyerhold, que
foi seu aluno, buscou uma outra identidade estética para a
sua pesquisa. Para isso, ao contrário dos futuristas, que tentavam
negar a arte do passado, e de maneira semelhante a Jacques Copeau,
extraiu da Commedia Dell’Arte e das artes orientais,
sobretudo do Kabuki e da Ópera de Pequim Chinesa, as bases
para o seu teatro. Descobriu, com isso, a importância da movimentação
e do ritmo que foi fundamental para a criação da sua
biomecânica. O corpo, ao seu entender, tem um poder de significação
muito maior que a palavra. Propõe a quebra da dicotomia corpo-cérebro
com um treinamento global que envolve corpo e cérebro na ação
e que serviu de base na construção da biomecânica.
Assim
como Copeau, Meyerhold eliminou o proscênio e trouxe, para o
seu trabalho, a máscara. Desnudou o palco e expôs os
meios metafóricos do gesto, do ritmo e da maquiagem. Entre
1918-1919, Meyerhold organizou uma Escola para Treinamentos dos Atores,
a fim de formar atores polivalentes que colaborassem na criação.
Estudava-se, em sua escola, técnicas de movimento cênico,
pantomima, Commedia Dell´Arte e teatro espanhol. O
fundamento de sua biomecânica estava na idéia de centrar,
no corpo do ator, a expressão e vida de seu teatro. Sobre isso
dizia:
Tirem a palavra, o figurino do ator, o palco cênico, o edifício
teatral e as coxias, deixem somente o ator e seus movimentos para
os quais foi treinado, mesmo assim o teatro continuará: o ator
comunicará ao espectador através de seus movimentos,
dos seus gestos, da sua mímica; o ator pode organizar, sem
a ajuda do edifício teatral, o seu teatro como, onde quiser
e considerar adequado, dispondo da própria habilidade.
(CHAVES, 2001:64)
Encontra-se,
nestas palavras, uma grande afinidade com os pensamentos de Decroux,
ao propor, através de sua mímica, valorizar a essência
do teatro, o ator. Meyerhold propõe uma outra relação
com o texto e indica que a dramaturgia escrita deveria entrar somente
depois que o roteiro de movimentos tivesse sido criado, como o pai
da Mímica Moderna dizia que a peça teatral só
poderia ser escrita depois de ensaiada.
A biomecânica
de Meyerhold assemelha-se com as figuras de estilo de Decroux. Ambas
são caracterizadas pelos princípios da montagem, com
movimentos extracotidianos no espaço e com variação
de ritmos.
Jersy Grotowski
A repercussão
internacional das pesquisas do fundador do Teatro Laboratório
de Wroclaw (Polônia), Jersy Grotowski (1933-1999) teve
a colaboração de Jean Louis Barrault quando, em 1966,
a seu convite, o espetáculo do diretor polonês O
Príncipe Constante foi apresentado em Paris e aclamado
pelos críticos franceses como a materialização
do teatro artaudiano. O conhecimento do trabalho deste diretor e pesquisador
teatral polonês fortaleceu a valorização das propostas
lançadas por Copeau, Decroux e Barrault quanto à ênfase
no ator criador, ao palco nu e à não sujeição
do teatro à literatura. Segundo Grotowski, o teatro pode ser
considerado, para muitos professores de literatura, um lugar para
dar vida a um texto, mas não para ele. Para evitar mais uma
das inúmeras definições desta arte, ele se pergunta
sobre o que é indispensável para que o fenômeno
teatral aconteça. Ele diz:
Pode
o teatro existir sem figurinos e cenário? Sim, pode.
Pode existir sem a música acompanhando a trama? Sim. Pode.
Pode existir sem efeitos de luz? Sim, pode.
E sem o texto? Sim; a história do teatro confirma isto. Na
evolução da arte teatral o texto foi um dos últimos
elementos a ser adicionado.(...) Mas pode o teatro existir sem o ator?
Eu não conheço nem um exemplo disto. Alguém poderia
mencionar o teatro de bonecos. Mesmo neste exemplo, porém,
o ator encontra-se atrás da cena, embora seja de um outro tipo.
Pode o ator existir sem audiência? Pelo menos um espectador
é preciso para fazer disto uma performance. (GROTOWSKI,
1995:32)
Grotowski
define por teatro o fenômeno que acontece entre o ator e o espectador.
Desde a criação de seu Teatro-Laboratório em
1959, na Polônia, tentou intensificar a relação
ator-espectador. Para isso, desenvolveu o que chamou de Teatro
Pobre, eliminando, ao máximo, os recursos cênicos
de cenário, figurino, maquiagem, iluminação e
ampliando a potência do ator e a sua relação com
a platéia. Investiu no treinamento do ator, por um método
que chamou de “via negativa”, isto é, o objetivo
não é o de construir uma técnica específica
para o ator e sim desbloquear e eliminar as tensões e tudo
que possa impedir os estímulos e impulsos de cada um. Ele tenta,
assim, anular o tempo entre o surgimento de um impulso e a sua realização.
Ele propunha, com isso, extinguir o tempo entre pensar e o fazer,
que o ator pensasse com o corpo inteiro, através das ações,
quebrando assim a dicotomia mente-corpo.
