Mímica & Teatro Físico

Mímica moderna no Brasil: Luis de Lima e Ricardo Bandeira

O Teatro Físico, como explicamos anteriormente, é uma síntese bastante específica e complexa de todo um movimento do século XX para resgatar a arte de ator, um ator criador livre dos domínios da literatura, do racionalismo objetivista e do naturalismo. O ator-criador é o ponto de partida para se realizar essa mudança. Nele, o pensamento e suas ações cognitivas não aparecem como algo que habita um veículo/instrumento. No Teatro Físico, o ator-criador é corpo. O seu pensamento é o pensamento do corpo.

(...) Quando esse movimento chega ao Brasil, na primeira metade do século XX, através de alguns grupos de teatro nacional que, como os franceses, também se encontravam insatisfeitos com a fragilidade da arte de ator, começa o fortalecimento do nosso teatro.

Luis de Lima no mimodrama “O Escriturário”, de 1953. (Foto Sascha Harnich).
Luis de Lima

Ao ser convidado a lecionar na EAD, Luis de Lima vai colaborar de forma fundamental com as experiências que já vinham sendo desenvolvidas. Ele acabara de estudar com Etienne Decroux, além de ter sido um dos principais mímicos da companhia de Marcel Marceau. Nascido em Portugal, residia na França, onde participava de importantes produções, que lhe valeram o título de Destaque do Ano, como um dos melhores intérpretes jovens do teatro francês. Fizera conceituados cursos acadêmicos, destacando o Conservatório Nacional de Lisboa, Conservatório de Artes Dramáticas em Paris, como bolsista (onde fora aluno de Louis Jouvet) e a Faculdade de Letras e Ciências, também de Paris.

Quando lecionou na EAD, focalizou seu trabalho essencialmente na prática, com grande ênfase nas improvisações corporais, baseadas na mímica. Foi esta nova abordagem corporal que deu oportunidade a um dos mais belos espetáculos produzidos na escola, o mimodrama O Escriturário, adaptado de um conto do escritor norte-americano Herman Melville. Este espetáculo introduziu a Mímica Moderna no Brasil e chamou a atenção das pessoas e dos críticos, como aparece no artigo de Ivo Zanini(22) que preparava o público para que não perdesse um só gesto dos atores.

Apesar de ter sido conhecido como mímico, Luis de Lima valorizava as leituras dramáticas, a literatura e a poesia. Traduziu várias peças do francês para o português e trouxe outras em sua bagagem, como A Cantora Careca e A Lição, ambas de Eugene Ionesco.

Seus trabalhos apresentavam-se sob os signos de Decroux, Marceau e Jean Vilar e na montagem realizada em 1954, A Descoberta do Novo Mundo, de Morvan Labesque, trazia um texto extremamente complexo com uma fusão de elementos mímicos e musicais num palco praticamente nu. No Festival Martins Pena, feito na EAD, dirigiu, em 1954, a peça Os dois ou o inglês Maquinista quando, segundo o critico Sabato Magaldi, pela primeira vez, o grande comediógrafo teria sido bem encenado.

Luis de Lima deixou a EAD em 1955, mas permaneceu no Brasil, atuando e dirigindo no teatro, no cinema e na televisão. Ele trouxe, para o país, o pensamento subjetivista da Mímica Moderna francesa, exaltando a importância das metáforas e distanciando-se do naturalismo e do racionalismo. (...)Embora Lima não tenha direcionado sua carreira no desenvolvimento da arte da mímica, especificamente, ela esteve sempre presente em sua vida. Em 1999, no evento Mímica em Movimento, organizado pelo Sesc-Consolação, em São Paulo, tive o prazer de ministrar a aula-espetáculo de abertura, alternando com Denise Stoklos e Luis de Lima. Na ocasião, foram testados, com a ajuda do público, alguns exercícios da técnica de Decroux, pontuando com muita clareza que o mímico não é um ator limitado e sim um ator elevado, como ele dizia. (DECROUX, 1985)

Ricardo Bandeira

Contemporâneo a Lima, Ricardo Bandeira precisa ser lembrado, uma vez que reforçou o amadurecimento dessa arte por aqui e auxiliou a introdução da nossa Mímica no exterior(23).

 Ricardo Bandeira quando estudou com Jean-Louis Barrault (1956) Ricardo Bandeira com Marcel Marceau em Paris. (fotos de arquivo).

Além de ter sido um excelente mímico, foi, também, poeta, escritor, dramaturgo, músico, compositor, produtor e diretor teatral. Nasceu em 11 de janeiro de 1936, no subúrbio da Leopoldina, no Rio de Janeiro. Estudou na Escola Prudente de Morais e, depois, no Colégio Batista Brasileiro, onde se iniciou no Teatro de Fantoche. Aos 16 anos, ingressou no teatro profissional, na Companhia de Procópio Ferreira, representando Cleanto em O Avarento, de Molière. Fez, ainda, Escola de Maridos, do mesmo autor, Demônio Familiar, de José de Alencar e Deus lhe Pague, de Joracy Camargo. Procópio Ferreira tornou-se, posteriormente, um grande admirador dele.

Em 1955, produziu, interpretou e dirigiu para a TV Record de São Paulo o infanto-juvenil Tic-Tac O Amigão, que foi líder do IBOPE durante um ano.Trabalhou na Companhia Jaime Costa e no Teatro de Revistas nas Cias Mesquitinha, Zilco Ribeiro e Wellington Botelho. Participou dos filmes A Família Lero-Lero, da Cinematográfica Vera Cruz; A Pensão de Dona Estela, da Multifilmes e A Doutora é Muito Viva, da Maristela.

Embora muitos digam que foi um mímico autodidata, Bandeira estudou balé com Mme Maria Carmem Brandão em 1956-57, foi para Paris estudar a arte da mímica com Jean Louis Barrault, com quem entrou em contato com a gramática corporal de Decroux e estudou a arte da pantomima com Marcel Marceau, que tanto o marcou em sua carreira. Em 1958, estréia a Cia Ricardo Bandeira, no Teatro Arena de São Paulo, com o espetáculo em dois atos As Aventuras de Bonifácio e Pequena Homenagem a Charles Chaplin. Excursiona ao sul do país e, em 1959, estréia Novas Pantomimas de Bonifácio e o mimodrama A Seca. Apresenta-se no teatro Municipal, em São Paulo e no Rio de Janeiro, no Teatro Maison de France. Recebeu da Associação Paulista de Críticos Teatrais (hoje APCA), o Prêmio Honorífico. Em 1960, estréia no Teatro de Cultura Artística de São Paulo, o mimodrama Carnaval, apresentado no Teatro Brasileiro de Comédia e Teatro Municipal de São Paulo.

Ricardo Bandeira foi uma referência para toda uma geração de mímicos e deixou muitos discípulos, entre eles Alberto Gaus, idealizador do Solar da Mímica e Cléber França. Fizeram parte de sua companhia Flávio Migliacio, César Macedo, Guilherme Correa, Célia Helena, Tereza Sodré, Marilena Ansaldi e outros. Em seu livro Atos-Movimento na Vida e no Palco (1994), Marilena Ansaldi, ao relatar sua experiência no Festival da Juventude em Helsinki, na Rússia, em 1962, escreve:

Ricardo Bandeira foi absolutamente ovacionado em todas as suas apresentações. Foi uma contribuição notável a da delegação brasileira ao festival. (ANSALDI, 1994:88).

Ricardo Bandeira em “Hamlet” de Shakespeare. (foto de arquivo).

Bandeira excursiona pela América Latina, no Uruguai, Argentina, Chile e Venezuela. Em 1962, vai para a Europa, onde recebe o Prêmio no Festival de Teatro da Finlândia, com o seu personagem Bonifácio. Apresentou-se em várias cidades da antiga União Soviética e nos Estados Unidos. Na volta, monta Um Americano em Moscou. Em 1963-64, excursiona pelo Brasil com novos espetáculos. Em 1967, apresenta sua primeira versão de Hamlet, de Sheakespeare, no Teatro Nacional de Comédia do Rio de Janeiro, sob o patrocínio do Embaixador Pascoal Carlos Magno. Na segunda versão desta montagem, apresenta-se em São Paulo, no teatro Ruth Escobar e faz, em 1968, uma bem sucedida turnê pela Europa, onde recebe, pela segunda vez, o prêmio de primeiro lugar no Festival Internacional da Bulgária. Estende sua turnê por outros países da Europa e Estados Unidos.

De volta para o Brasil, estréia o espetáculo O Acrobata Pede Desculpas Mas Não Cai, inspirado na obra de Fausto Wolff. Em 1970, recebe pela terceira vez, o Primeiro Prêmio no Festival Internacional de Teatro em Stratford-on-Avon, na Inglaterra, com Hamlet. Entre 1971 a 1976, criou os espetáculos História da Incivilização, Que Fazer com a Minha Juventude, Eu! Maiakovski!, Eu! Bethoven, Coração de Vidro e Ricardo III, criação livre sobre a obra de Shakespeare, pela primeira vez em toda a história do teatro representada por um único ator.

Adotou um estilo de movimentação que se assemelhava à mímica objetiva de Marcel Marceau, e embora trouxesse as ilustrações objetivas, era poética e repleta de metáforas. Por meio de suas apresentações, Bandeira nos fez repensar, assim como Marceau, que a relação entre mímica objetiva e mímica subjetiva é mais complexa do que imaginávamos e são dois elementos indissociáveis como será incansavelmente pontuado pela mímica contemporânea. Marcel Marceau, certa vez, no Brasil, assistiu à apresentação de Bandeira e marcou o meio artístico ao falar:

Esse é o meu sucessor brasileiro. (Revista do Lume, número 5, 2005:16).

(22) ZANINI, Ivo. Pela Primeira vez no Brasil vai ser levado à cena um mimodrama. Jornal O Tempo, São Paulo, 3/11/1953. [volta]

(23) Bandeira conquistou três prêmios internacionais: na Finlândia em 1962, na Bulgária em 1968 e na Inglaterra, em 1970, com Hamlet, na própria cidade de Shakespeare, Stratford Upon Avon. [volta]