Mímica & Teatro Físico

Jean Louis Barrault e a mímica vocal.

Jean-Louis Barrault

(...) Nascido em 1910, Barrault perdeu seu pai muito cedo e, segundo ele, passou toda sua vida procurando pelo pai. (BARRAULT, 1972:29) Como Decroux, fez muitos trabalhos manuais. Teve uma breve passagem pela Escola do Louvre, na tentativa de ingressar nas artes plásticas, mas achou sua verdadeira vocação ao ingressar no Théâtre de L’Atelier, em 1931. No dia oito de setembro de 1931, então com vinte e um anos, pisou no palco pela primeira vez, representando um servo em Volpone.

(...) No Théâtre de l’Atelier, Barrault estudou improvisação com Dullin. O espírito da escola de Copeau ainda estava muito vivo e, como lá, improvisavam sobre temas do nascimento, das emoções, da descoberta de si no ambiente, comportamento animal, características humanas nos animais e vice-versa; estudou os clássicos e as ginásticas de Dalcroze, Delsarte,o método de Stanislavsky e o introduziu nos estudos da biomecânica de Meyerhold.

(...) Nesse período, Barrault apaixonou-se pelo trabalho desenvolvido por Decroux e, com ele, dedicou-se, num intenso período de dois anos, à exploração das possibilidades da Mímica Corporal Dramática. Essa pesquisa direcionou-os ao que eles chamavam de mímica objetiva e mímica subjetiva. O primeiro estudo estava ligado à criação de ilusões espaciais, isto é, tornar concreto um objeto imaginário pelo uso do corpo como um todo. Daí o nome: Mímica Corporal. As chaves, nessa fase, foram os contrapesos. Decroux e Barrault desenvolveram várias categorias de contrapesos, alguns que enfatizavam o peso da gravidade, criando uma força de cima para baixo e outros que lutavam em direção oposta. O estudo da mímica objetiva tinha uma forte ligação com a Pantomima do século XIX, que utilizava as ilusões de objetos, como paredes, garrafas etc, na narração de histórias sem o uso das palavras. Mas, com Decroux, ele presenciou a investigação da mímica subjetiva, que o influenciou profundamente e que se tornaria o elemento primordial do trabalho de seu mestre até o final de sua vida. Barrault define a mímica subjetiva como o estudo dos estados da alma traduzidos à expressão corporal

Em seu último ano no l’Atelier, guiado pelo amor à literatura americana, Barrault começou a explorar novas possibilidades teatrais na montagem da obra de William Faulkner, As I lay Dying. A descoberta dos momentos de silêncio do teatro falado, a mímica vocal e novos caminhos para o trabalho com a voz foram explorados nesta adaptação feita por ele e uma nova etapa em sua carreira, começou. Em uma determinada cena desta montagem mencionada, um certo jovem tenta domar um cavalo selvagem. O inusitado é que o cavalo aparece sob o olhar da mímica. Toda a cena foi feita tendo o ponto de vista do cavalo. A mímica vocal, que teve início nas improvisações de Copeau, continuou com Decroux e teve um papel fundamental nessa montagem. Barrault definia a mímica vocal como a poesia completa da respiração e, em seu livro Réflexions sur lê théâtre, escreve um momento desta peça onde conseguimos visualizar esta técnica:

... uma longa seqüência de respirações calculadas causaram um efeito aterrorizante, correspondendo com o raspar da serra do filho carpinteiro, que seguindo as instruções de sua mãe, no momento de sua agonia, construía seu caixão. (BARRAULT, 1957:39)

Jean-Louis Barrault em cena de “Les Enfantes du Paradis”

Decroux e Barrault desenvolveram, na Mímica Corporal, as metáforas corporais, em que um gesto era compreendido e experienciado em termos de outro, com a finalidade de revelar os sentimentos e as emoções ocultas. Mas foi com Barrault que o mesmo princípio passou a ser aplicado na mímica vocal, como se pode notar na passagem anterior em que, por meio de um gesto vocal (seqüência de respirações calculadas), provoca o entendimento no público do raspar da serra do filho do carpinteiro.

(...) Ele recebeu com forte impacto a pesquisa e o pensamento de Artaud, que também o impressionara com a grandiosidade de seu caráter, após a forte personalidade de Dullin e do intenso período de treinamento e de amizade com Decroux.

(...) Em 1937, ele prossegue a sua pesquisa, com a mímica corporal e vocal quando encena Numance de Cervantes. Em 1939, atua em La Faim, um drama no qual a ação corporal e a vocal caminhavam juntas. Em 1943, participa do filme Les Enfantes du Paradis(11) . O filme foi um grande sucesso de crítica e público e embora seja considerado como um dos mais importantes filmes na França, ele não tem relação alguma com a Mímica do século XX.

(...)Durante as próximas duas décadas, ele trabalhou no cinema, produziu, dirigiu e atuou seus próprios trabalhos. Com a agenda lotada no circuito comercial, sobrou-lhe pouco tempo para experimentações e para prosseguir com a pesquisa que iniciara com Autour d’une mère.

(...)Em sua longa carreira, Barrault foi um grande articulador do teatro. O bailarino Maurice Bejart trabalhou com Barrault em 1954, a fim de fundir os elementos do teatro e da dança, inspirados após assistir a uma apresentação de Martha Graham.

 
Jean-Louis Barrault em cena de “Hamlet” (foto por photo X) e,
com Marie-Hélène Dasté em “Cristóvão Colombo” (foto Studio Bernand).

A repercussão internacional das pesquisas do fundador do Teatro Laboratório de Wroclaw (Polônia), Jersy Grotowski (1933-1999) teve sua colaboração quando, em 1966, a seu convite, o espetáculo do diretor polonês O Príncipe Constante foi apresentado em Paris e aclamado pelos críticos franceses como a materialização do teatro artaudiano. Barrault, também, promoveu a mudança do diretor teatral Peter Brook para Paris, em 1970, convidando-o a fazer parte do Théâtre des Nations.

Certamente, para Barrault, a arte da mímica tinha uma dimensão maior do que pensava seus contemporâneos, pois, para ele, a Mímica poderia conviver no teatro falado.

(11) Barrault interpreta, nesse filme, o papel do famoso pantomimo do século XIX , Jean-Gaspard Debureau. Étienne Decroux representava seu pai. [volta]