Mímica & Teatro Físico

Os primeiros centros de experimentação no Brasil

Assim como é impossível falar sobre a mímica moderna francesa sem deixar de citar a importância de Jacques Copeau e da sua Ecole du Vieux Colombier, é igualmente indispensável apontar a importância de Alfredo Mesquita e da sua Escola de Artes Dramáticas (EAD), para identificarmos as reverberações desse movimento no teatro nacional e na formação da Mímica e do Teatro Físico no país.

Na década de trinta, o teatro brasileiro era caracterizado pela posição mercantilista das companhias, que defendiam a idéia de que toda a arte deveria ser comercial.

(...)A posição do ator brasileiro, nessa época, tinha uma forte semelhança com a posição do ator francês do início do século, principalmente no que se refere à sua fragilidade no processo de criação, na forma de expressão centrada no rosto e voz, um corpo inexpressivo devido à estética do mercado, à hierarquia do sistema de estrelato.

(...) Os elementos que tanto perturbavam Copeau, como a frágil posição do ator na criação, a sujeição do teatro à literatura, o teatro comercial atrelado aos modismos burgueses e o sistema de estrelato, também eram encontrados aqui. O grande descontentamento por tal sistema chegou rapidamente aos grupos amadores do eixo Rio-São Paulo e a crítica teatral apontou não só a baixa qualidade dos espetáculos encenados, mas também o mercantilismo de seus propósitos.

No desejo de uma outra forma de arte e contra este sistema dominante, Pascoal Carlos Magno forma, em 1938, no Rio de Janeiro, o Teatro do Estudante. Em 1942, Alfredo Mesquita funda o Teatro Experimental em São Paulo. Décio de Almeida Prado cria, também em São Paulo, o Grupo Universitário de Teatro em meados de 1943. Os grupos amadores do eixo Rio-São Paulo se inspiravam diretamente na revolução efetuada no teatro francês por Jacques Copeau. Já na década de 20, Álvaro Moreira, fundador do Teatro de Brinquedo, revelava esta ligação quando dizia:

A verdade é que o Teatro de Brinquedo começou a se formar em mim em outubro de 1913, quando levado por meu amigo Pierre Beu Rouge, pude assistir Jacques Copeau dirigindo os últimos ensaios da Companhia do Vieux Colombier em Paris. (DÓRIA, 1975:28)

(...) Décio de Almeida Prado, fundador do Grupo Universitário de Teatro, foi para a Europa em 1939, onde pode presenciar o trabalho de algumas companhias célebres ligadas a Copeau, além de assistir a uma conferência com o próprio mestre(19).

(...) Embora possamos encontrar nos três grupos o desejo e a ponte clara com os ensinamentos de Copeau na reforma do teatro francês, foi com Alfredo Mesquita que estas características se evidenciaram.

(...) Alfredo ingressou na direção teatral em 1936, com amadores de São Paulo, encenando uma trilogia de sua autoria(20). (...) Alfredo estava cansado da repetição da mesma fórmula das suas encenações, uma mistura de teatro com festa folclórica. Em 1942, Alfredo Mesquita se impressionou com a temporada brasileira da Companhia de Louis Jouvet (ex-aluno de Copeau). Ele, que trazia o espírito e os ensinamentos de Copeau, fascinou muitos artistas e intelectuais brasileiros. Contaminado pela temporada francesa no Brasil, Alfredo fundou, no mesmo ano, o Grupo de Teatro Experimental, com a finalidade de elevar o nível de nossas apresentações.

Mesquita sempre se considerou um humílimo seguidor de Copeau, defendendo sempre aqui no Brasil as idéias dele (SNT, 1977, v.II, p.23, apud, DA SILVA, 1989:33). (...) A vontade que foi detonada nos trabalhos do seu Grupo Experimental de Teatro e pelos outros grupos amadores citados, transformou-se, mais tarde, numa instituição pedagógica. Em 1948, inaugurou a Escola de Artes Dramáticas (EAD) em São Paulo. A EAD nasceu do descontentamento com o teatro comercial da época e com o objetivo de fortalecer o papel do ator na criação. A escola tinha uma proposta forte e concreta para o crescimento de um ator mais preparado. (...) Para esta mudança de cenário, Alfredo acreditava ser fundamental um corpo de ator treinado e dotado de uma cultura e um cérebro perspicaz.

Nesse sentido, consciente ou inconscientemente, iriam existir muitos pontos de contato entre o currículo da EAD e o da Escola Profissional do Vieux Colombier, em suas duas versões de 1915 e 1920. Copeau também pensava em desenvolver o físico de seu ator e educar seu cérebro, para ele um binômio indissolúvel em qualquer trabalho de preparação. (DA SILVA, 1985:60)

Aula de mímica com Chinita Ullmann, na EAD, em 1948. (arquivo RTC – Multimeios – C.C.S.P.).

(...) Notava-se, no programa da EAD, uma preocupação com o corpo do ator e, para isso, foi desenvolvida uma disciplina de mímica organizada por Ullmann, partindo dos pressupostos de Dalcroze e Rudolf Von Laban(21) (1879-1958) . A introdução da disciplina Mímica foi um fator de grande diferença para aquela época, pois não havia uma preocupação corporal para o ator. Embora o treinamento da escola tivesse como meta principal prepará-lo para melhor servir ao texto, a EAD teve um importante papel para a introdução de uma posição diferenciada do ator. A importância da preparação corporal do ator foi introduzida por Ullmann em suas aulas de mímica, que mesmo tendo este nome, possuía pouca semelhança com a idéia da mímica desenvolvida por Etienne Decroux.

Aula com o mímico Marcel Marceau, na EAD, em 1951. (arquivo Sara Perissinotto).

(...)A EAD foi responsável por uma ponte direta com a mímica francesa, que aconteceu na turnê de Marcel Marceau no Brasil, em 1951, ao ministrar um curso para os alunos.

Esta ligação ganhou força em 1952, quando Alfredo Mesquita trouxe para o Brasil e especificamente para a EAD, o português Luis de Lima, indicado por Sabato Magaldi, que trouxe uma proposta de teatro enraizada na vanguarda francesa e na mímica moderna.

 


(19) Na estréia de Os Comediantes, um de seus principais mentores intelectuais, Brutus Pereira, usou o esquema de marcações feitas por Copeau e Baty, para a montagem de A Verdade de Cada Um, de Luigi Pirandello, que foi entregue para o diretor do grupo Adacto Filho. [volta]

(20) As peças eram: Noite em São Paulo (1936), Casa Assombrada (1938) e Dona Branca (1939). [volta]

(21) Bailarino, professor, coreógrafo e pesquisador, desenvolveu a Kinetography Laban, um sistema de notação de movimento mais conhecido como Labanotation.[volta]