Mímica
Contemporânea no Brasil:
Denise Stoklos e Luis Otávio Burnier
Mas o
que seria esta mímica brasileira que não apenas mimetizava
os movimentos estrangeiros, mas trazia as suas próprias questões?
Denise Stoklos
Em 1979,
Denise Stoklos retornou ao Brasil, para uma carreira meteórica
que culminou na criação de seu Teatro Essencial.
Com ela, a mímica explode no país. Uma mímica
diferente, em que se intensificou a posição do ator/criador
e a integração da ação corporal com a
vocal. Romperam-se os limites da ficção com a realidade
através da figura do que, no campo da performance, convencionou-se
chamar de “persona”. Stoklos consegue centralizar em si
a síntese das conquistas de um século em busca de um
ator-performer, dono de sua casa, o teatro.
 |
 |
| Denise
Stoklos – Fotos do livro “500 anos, um fax de Denise
Stoklos para Cristóvão Colombo” (fotos de
Flander de Souza) |
Tal como
Copeau, Stoklos coletou, pelo mundo, as ferramentas necessárias
para se fortalecer como artista e colocar-se, com toda a sua potência,
num palco nu. Assim como Copeau, Decroux, Lecoq, Artaud, Grotowski
e seus antecessores, ela eliminou todo o supérfluo de cena
e investiu na força do ator:
Acredito
na relação de nova realidade que se faz na força
da presença viva do ator, engajado na história com suas
idiossincrasias, sem recursos do fabricado, limpidamente como água
na fonte. Os valores do palco muitas vezes estão povoados de
valores de bastidor, de camarim. Quero o palco nu. Os figurinos, cenários
e discursos radiofônicos muitas vezes acoplam parasitárias
imagens no ator. Não quero decoração. (STOKLOS,
1993:5-6)
Começou
sua carreira como autora, diretora e atriz em 1968. Trabalhou em diversas
peças até 1977, dirigidas por Ademar Guerra, Antunes
Filho, Antonio Abujamra, Fauzi Arap e Luis Antonio Martinez Correia,
entre outros. Em 1979, estudou Mímica e Teatro Físico
na Escola de Desmond Jones. Na Inglaterra, assimilou e transformou,
para si, as pesquisas de Decroux a Lecoq. Libertou-se do que Artaud
e Decroux chamavam de império do texto, assumiu a autoria de
seus espetáculos, criando, no mesmo ano, o seu primeiro espetáculo
solo, One Woman Show, no qual escreve, dirige, atua e produz.
Depois de uma estada na California, onde estudou com Leonard Pit (discípulo
de Decroux), criou seu solo Elis Regina, cuja presença
marcante da cantora perpetuou em seus espetáculos. Ela entrou
em contato com o trabalho de desconstrução gestual através
de Pit e conseguiu, com isso, um contraponto para a técnica
decodificada de Decroux. A desconstrução lhe serviu
para entrar em contato com o que Grotowski e depois Barba chamaram
de fluxo de vida(25).
Serviu como uma espécie de via negativa para eliminar seus
bloqueios e contactá-la a seus impulsos e, desta forma, Stoklos
rompe com a divisão do pensar seguida da ação
e integra a mente/corpo na ação física. Trata
o corpo não mais como um instrumento para se concretizar os
pensamentos como se fazia anteriormente, mas como o próprio
pensamento.
A
mímica de Stoklos apresenta, em alguns momentos, a precisão
e a subjetividade de Decroux e, em outros, a objetividade das pantomimas
de Marceau. Ela elimina as barreiras da objetividade e subjetividade
e integra a relação dentro-fora, razão-emoção,
corpo-mente através do que Lakoff e Johnson denominam de síntese
experiencialista. Integra o corpo e a voz e mergulha na expressão
das sonoridades das palavras, através da defacetação(26)
e da desconstrução. Ao defacetar a palavra, usa a repetição
como meio para poder chegar num nível mais profundo. Isso nos
traz ecos da mímica vocal de Barrault e das experiências
de Artaud.
Em 1987,
ela lança seu Manifesto do Teatro Essencial, no qual
propõe uma relação teatral com o mínimo
possível, centrada na presença do ator. Para Stoklos,
o teatro é essencial e para que ele exista é necessário
o ator. (...) Um dos elementos mais fortes e típicos de sua
obra é a conexão do ator/artista/cidadão.
(...)
Com isso, a relação do ator essencial deixa de ser a
de um ator de ficção, que interpreta um texto através
de um personagem, e torna-se a de um ator-performer. Este ator-performer
equivale ao ator-criador do Teatro Físico que elabora o texto,
dirige e atua na figura da persona, à frente de um personagem
e não atrás dele, diferentemente do ator-intérprete
de ficção que inicia seu processo de criação
a partir de um texto. Stoklos afirma o artista como protagonista da
criação. Se essa premissa parece comum a todo artista,
nela está em oposição ao comportamento profissional
estabelecido habitualmente, no meio teatral brasileiro, onde o ator
engaja-se num projeto de espetáculo a convite de um diretor,
com a função de representar um personagem. Na sua proposta
é o ator quem gera e é dele que parte a iniciativa para
a realização de projetos.
(...)
Stoklos compartilha do entendimento de Artaud, ao dizer que, em seu
Teatro Essencial, o corpo não é veículo
do pensamento, mas o próprio pensamento. O corpo do ator, segundo
Artaud, não deve produzir significados pelo que representa,
mas pelo que é. Ele propõe a fisicalidade do gesto absoluto,
que é a própria idéia. A configuração
desse corpo expressivo artaudiano, não hermenêutico,
que é significante e significado ao mesmo tempo, produzindo
pensamentos em movimento, rompe com a dicotomia tradicional essência/aparência,
que pode ser sugerida pela nomeação que a atriz escolheu
para seu manifesto. Por isso é importante esclarecer que não
se trata de criar mais dualidades. Na Mímica Contemporânea,
o ator não tem um corpo, ele é o corpo, por isso fica
tão difícil, para Stoklos, trabalhar com a idéia
de ator-intérprete ou ator de ficção.
(...)
Dona de uma trajetória impressionante, ela é a única
atriz brasileira a ter apresentado suas peças, freqüentemente,
em mais de trinta países, em sete idiomas diferentes. Foi aclamada
como a melhor de todo o festival de artes de Edimburgo, no ano de
1994, na Escócia, por uma considerada publicação
de circulação nacional inglesa, o Jornal The Observer.
Mesmo
tendo escolhido para si um teatro cujo nome representa e afirma sua
escolha, é impossível separá-la do movimento
que construiu a Mímica Contemporânea ou o Teatro Físico.
Stoklos defende o palco nu, elimina os excessos e centra o teatro
em um ator potencializado que cria, escreve, dirige e atua. Um ator-criador
que é o seu próprio corpo e que por meio da persona
rompe com a dicotomia autor/criador, real/ficção, palco/platéia,
mente/corpo, objetivo/subjetivo. Liberta-se dos domínios da
literatura, do racionalismo iluminista e do naturalismo. Denise sintetiza
todos estes elementos, conquistados na batalha deste movimento no
século XX e agora no XXI.
Luis Otávio Burnier
 |
 |
| Luis
Otávio Burnier – demonstração técnica
(fotos de Pedro Gimenez). |
Outro
brasileiro que deixou sua marca no cenário da mímica
contemporânea no país foi Luis Otávio Burnier.
Desde a sua adolescência, Burnier passava horas fechado em seu
quarto, praticando mímica, em frente ao espelho. Imitava o
gestual de Marceau nos filmes, emprestados da Aliança Francesa
de Campinas. Como esta arte não era popular no meio artístico,
foi desta maneira que ele se tornou um mímico.
Em 1973
(..) foi estudar por seis meses na Fitzgerald High School,
na cidade de Warren, em Michigan. No final do estágio, apresentou
um espetáculo de mímica para várias outras classes
e recebeu o diploma de Mime Lecture.
A confirmação
de sua trajetória deu-se aos 17 anos, quando se apresentou
no Festival dos Cursos de Teatro de Campinas, em 1974. Ele
conseguiu prender a atenção de 120 pessoas na platéia
e foi ovacionado após a apresentação de seu Burna,
um mendigo que se relaciona com os seres puros e desamparados. Após
ter que retornar cinco vezes, para agradecer os aplausos, ficou sabendo
que havia uma pessoa especial na platéia, o maior mímico
brasileiro e um dos maiores do mundo, Ricardo Bandeira. Ele abraçou
Burnier no camarim e voltou com ele para o palco, onde o homenageou,
repetindo o gesto que, certa vez, recebera de Marcel Marceau, dedicando-lhe
uma pantomima. O público veio ao delírio.
No mesmo
ano, inscreveu-se para o vestibular da Escola de Artes Dramáticas
(EAD). Na última fase do teste, Burnier fez uma improvisação
com uma esponja de aço, utilizando-a ora como bigode, ora como
microfone, ora como tocha olímpica e mais uma variedade de
outras situações. Dos 140 estudantes inscritos naquele
ano, Burnier passou em primeiro lugar e, como resultado de sua performance
nos testes, ganhou uma bolsa de estudos para o Mime Mouvement
Théâtre de Jacques Lecoq, na França.
Na França,
em 1976, foi à procura de seu ídolo, Marcel Marceau,
mas acabou conhecendo primeiro Jean Louis Barrault, que o aconselhou
a estudar diretamente com o pai da mímica moderna, Etienne
Decroux.
Burnier
consegue ingressar na École de Mime Etienne Decroux
com uma carta de apresentação feita por Barrault. No
mesmo ano é admitido na Université de la Sobonne
Nouvelle-Paris III. Sua rotina tornou-se exaustiva: pelas manhãs,
freqüentava as aulas de mímica com Decroux e, às
tardes, as aulas teóricas no Institut d’Etudes Théâtrales.
(...)
Burnier deixou o país com a sua pesquisa centrada na mímica
objetiva. Na França, apaixonou-se pela mímica subjetiva
de Decroux. A síntese das duas acontece posteriormente em sua
pesquisa com o grupo Lume. Em 1977, reconhecendo a obstinação
de seu aluno, Decroux contratou Burnier para trabalhar como monitor
em suas aulas. No mesmo período, iniciou uma pesquisa sobre
a mímica corporal, que concluiu em 1979, orientado por Maximilian,
filho de Decroux.
(...)
No total, foram oito anos de estudo e treinamentos na Europa, dos
quais, três anos com Etienne Decroux. Trabalhou com Eugênio
Barba, Philipe Gaulier, Jacques Lecoq, Yves Lebreton, Jersy Grotowski
e com mestres do teatro oriental (Nô, Kabuki e Kathakali).
(...)Desde
que voltou da França, Burnier sonhava em fundar uma companhia
de pesquisa do movimento. (...) Nove anos depois, em 1985, fundaria
o Lume – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais(27),
com a musicista Denise Garcia e o ator Carlos Roberto Simioni, com
o objetivo de elaborar e codificar técnicas corpóreas
e vocais de representação, redimensionando o teatro
enquanto ofício, como uma arte do fazer e o ator como um artesão
que executa ações, entendendo técnica e criação
como elementos inseparáveis. Buscar o “ser ator”
através do princípio de se pesquisar o homem e suas
relações, corpo e dimensão interior, via treinamento
e representação. O ator entendido enquanto pessoa, enquanto
filho de determinada cultura e enquanto profissional do palco. A idéia
inicial era combinar, num centro de pesquisa da arte de ator, o conhecimento
adquirido na Europa com a cultura brasileira.
(...)
Em 1988, Ricardo Puccetti ingressou no Lume e, com ele, foi desenvolvida
a pesquisa do Sentido Cômico do Clown, da qual resultaram
os espetáculos Valef Ormos, Mixórdia em Marcha-Ré-Menor,
Cravo Lírio e Rosa, La Scarpetta e outros.
(...)
Em 1994, o Lume aumentou sua equipe de trabalho, com a chegada de
novos atores: Renato Ferracini, Raquel Scotti Hirson, Ana Cristina
Colla, Jesser de Souza e, desde 1998, Naomi Silman. Os sete atores
permanentes do grupo pesquisaram e criaram metodologias para desenvolvimento
de técnicas pessoais de representação para o
ator, extrapolando os limites da expressão física e
vocal, construindo espetáculos que quebram as formas convencionais
de relação ator–público nas suas mais variadas
formas e possibilidades. A intensa utilização das corporeidades
e do potencial vocal dos atores fazem destas obras uma interessante
experiência, com suas variações, sutilezas, coloridos
e musicalidades.
Em 1995,
Luis Otávio Burnier morre, precocemente, aos 38 anos, mas deixa
um rico legado com o Lume, que completou, em 2005, vinte anos de existência.
O Lume conta, em seu repertório, com mais de vinte peças
teatrais, apresentadas por todo o país e no exterior. Com toda
a sua base vinda dos elementos da Mímica e do Teatro Físico,
desenvolveram um treinamento sistematizado, tanto físico como
vocal, e uma metodologia própria, fruto de um trabalho diário
do grupo.
Burnier
afirmava que a idéia de que o ator interpreta é falsa,
por ser uma idéia escrava da noção de que o teatro
começa na literatura. Subentende-se, com isso, que o ator interpreta
uma obra escrita, o que não é verdade. Na sua pesquisa,
o ator-criador, quando cria a sua dramaturgia escrita, coloca-se entre
ela e o espectador, como intermediário. Ele é, portanto,
quem propõe, o espectador é quem lê e interpreta
os diversos sinais, emitidos pelo ator. Nessa posição,
a ficção não existe e sim o ator, o seu corpo.
(...)
A Mímica, para Burnier, definia-se como a arte do fazer físico
e do fazer vocal, a arte do ser, do estar presente.
(...)
Ele, como Stoklos, usava o termo performer ao se referir ao ator-criador,
pois simbolizava a idéia do “ser ator” que borra
a ficção com a realidade. Burnier não compartilhava
da visão, em seus estudos, de um corpo como veículo
da expressão e do pensamento, mas de um ator ser o corpo e
não de possuir um corpo.
(...)
Hoje, o Lume é um centro de referência na suas pesquisas
sobre a arte de ator, que têm sido transmitidas a diversos profissionais
do teatro (indivíduos e grupos), no Brasil e exterior. Barão
Geraldo, onde se localiza sua sede, tornou-se um importante pólo
teatral no Brasil, e ali, diversos grupos e artistas se instalaram
para se dedicar à pesquisa em busca de um fazer teatral que
valorize o ator-criador. Entre eles, destaca-se o Barracão
Teatro, de Tiche Vianna e Ésio Magalhães.
