Mímica
Contemporânea e/ou Teatro Físico:
a síntese experiencialista
O movimento
da Mímica do século XX surgiu do desejo de resgatar
a arte de ator no teatro. Para se conseguir alcançar tal objetivo,
travou-se um combate contra os domínios da palavra e da escrita,
que imobilizavam o ator na criação e no fazer teatral.
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| Steven
Berkoff |
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A mímica moderna entra de frente com essa forma de pensar e
adota o subjetivismo, no qual a imaginação, os sentimentos
e a intuição são os melhores guias para revelar
a realidade e compreender a vida. Copeau, Decroux e Barrault acreditavam
que, investindo na emoção, nos sentimentos e na sensibilidade
estética, poderiam transcender a racionalidade e a objetividade.
Decroux compartilhava do pensamento de que a razão ignorava
os fatores mais importantes e significativos da vida. Jacques Copeau
e, principalmente, Decroux, investiram na metáfora como meio
de se livrarem das limitações objetivas. Copeau afastou-se
do racionalismo e encontrou, por meio da máscara neutra, um
remédio para a racionalidade objetiva. A maior característica
dela é a de proporcionar ao ator um estado onde as sensações
e intuições são os maiores guias para transcender
o real e atingir camadas mais profundas da vida racional cotidiana.
Com esse recurso, a metáfora emerge como principal fruto, pois,
com ela, a verdade não é exposta, mas revelada.
Decroux
aprofunda-se no estudo delas em sua mímica corporal. Surge
a idéia de um corpo metafórico, que não representa
simplesmente um corpo, mas também sensações,
emoções e até mesmo um outro objeto. Ele pensava
num corpo que fosse veículo para corporificar o abstrato, tornar
visível o invisível. Na sua mímica subjetiva,
o corpo se movimenta no espaço, criando gestos e ações
metafóricas para poder acessar sentimentos que a razão
não atinge.
Decroux
e Artaud criticam o império do texto e da palavra, por acreditarem
que ambos reforçam a visão objetivista, na qual a razão
está acima de tudo. Artaud propõe o fim das obras primas
e Decroux, em seu manifesto, elimina o texto e as palavras na fase
inicial de sua reforma, por um período de trinta anos. Copeau,
anteriormente, provocou outra forma de libertação, cobrindo
o rosto do ator e, conseqüentemente eliminando, sua fala. Barrault
trouxe, em seu trabalho, a subjetividade de seus dois mestres e explorou
as metáforas da fala e da voz em sua mímica vocal. As
sensações e os sentimentos liberados na respiração
e na sonoridade da voz compreendiam significados que extrapolavam
o entendimento literal.
Marcel
Marceau, num contra-fluxo, retornou para a mímica objetiva,
resgatando o gestual ilustrativo das pantomimas, contrário
à proposta e ao gosto de Decroux. Marceau
explorou a mímica objetiva em histórias lineares sem
a subjetividade encontrada em seu mestre. Embora sua mímica
fosse objetiva e seus gestos se caracterizassem pela ilustração
(na mímica de Marceau muitas vezes um objeto representava o
próprio objeto), mesmo assim ele ficou conhecido por resgatar
o lúdico, o amor e os encantamentos do dia-a-dia em uma Europa
destruída pela segunda grande guerra. Juntamente com o fenômeno
de Marceau no século XX, aparece um questionamento que será
respondido, mais tarde, pela pesquisa de Lakoff e Johnson. A questão
é: o pensamento metafórico pode estar inserido em nossas
vidas cotidianas, nos gestos e nas falas do dia-a-dia? Há realmente
uma divisão entre objetivismo e subjetivismo?
A discussão
sobre o objetivismo e o subjetivismo das metáforas sofreu uma
ruptura paradigmática fundamental na década de setenta,
com a obra de Lakoff e Johnson. Nela, os autores afirmam a amplitude
da metáfora. Eles fazem uma distinção de metáfora
de linguagem e metáfora de pensamento e explicam, com isso,
que ela não é simplesmente um recurso de linguagem,
mas é, indiscutivelmente, de natureza conceptual, um importante
aparato cognitivo e é essencial para a compreensão do
mundo, da nossa cultura e de nós mesmos.
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| Denise
Stoklos em cena do espetáculo “Casa” (foto:
Isla Jay) |
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Nessa obra, que revolucionou o estudo das metáforas, quebra-se
a dicotomia cartesiana razão/emoção e, conseqüentemente,
o dualismo objetivismo/subjetivismo através do enfoque experiencialista
que sintetiza as duas idéias na compreensão de uma racionalidade
imaginativa, que une razão e imaginação.
A opção
experiencialista rejeita a concepção de que o objetivismo
e o subjetivismo sejam nossas únicas escolhas. Assim como ela
nega o pensamento de uma verdade absoluta e incondicional objetivista,
também se opõe à pura intuição
subjetiva como nosso único recurso para atingir a verdade.
O modo de compreensão experiencialista do mundo acontece, na
interação com ele, através de uma racionalidade
imaginativa.
Esta síntese elimina a dicotomia corpo/mente, pois compartilha
a idéia de que compreendemos o mundo por meio de metáforas
construídas com base em nossa experiência corporal. A
nossa mente e o nosso corpo interagem pra dar sentido ao mundo.
Lecoq
inicia a prática experiencialista em sua mímica. Ele
estimula tanto o estudo da mímica objetiva através da
pantomima branca como pela subjetiva no que ele denominava mimage.
Nesta sua categorização, o subjetivo era revelado pela
ação em um close-up interno do estado emocional
do personagem. No Teatro Físico, esta interação
se aprofunda ainda mais e acontece uma mudança essencial no
entendimento do corpo. Na Mímica Moderna (Decroux, Barrault
e, em menor intensidade, em Lecoq) o corpo é visto como instrumento,
como veículo para o pensamento. A metáfora corpo
é instrumento ainda é presente no vocabulário
dos modernistas. No Teatro Físico, aconteceu uma mudança
no entendimento do corpo que alterou não só a relação
ator/personagem, como também, a própria rotina de treinamentos
e codificações de técnicas corporais. Isto ocorre
quando a metáfora anterior é substituída por
corpo é pensamento.
Com este
novo entendimento do corpo, o ator da mímica contemporânea
não irá mais construir uma técnica corporal para
instrumentalizar este corpo que ainda não lhe pertence, mas
irá desenvolver meios de desconstruir todas as tensões
que bloqueiem seus pensamentos na ação.
