Jacques
Copeau e a Ecole du Vieux Colombier
 |
| Jacques
Copeau |
(...)
Copeau era contrário à frágil posição
do ator no teatro comercial que servia como uma peça decorativa
da produção. Apoiava os críticos do naturalismo,
quando estes diziam que a arte não se reduzia à exposição
do natural e sim à revelação do real.
Copeau nasceu em 1879, estudou no Lycée Condorcet e,
depois, na Sorbonne.
(...)Seu
desgosto pelo teatro de seu tempo era notório. Ele dizia: (...)
para o teatro renascer, todos os atores deveriam morrer de praga.
(DORCY, 1961:8). O teatro estava poluído de sensacionalismo
e exibicionismo barato, por cenários extravagantes, objetos
cênicos requintados e parafernálias de todos os tipos.
A hierarquia era clara: colocava o texto/autor no topo da sua pirâmide,
seguido do diretor, do cenógrafo, figurinista, técnicos
do teatro e por último, numa frágil posição,
encontrava-se o ator. Ele declamava o texto e se expressava principalmente
com as suas mãos, rosto e voz. Seu corpo ficava praticamente
imóvel, em poses que destacavam o figurino. A sua movimentação
era direcionada, muitas vezes, para não ficar na frente de
algum sofá, tapete ou objeto cênico que valesse mais
atenção que a sua própria presença.
Era
comum, em suas idas ao teatro, presenciar os aplausos do público
ao abrirem as cortinas, ovacionando o cenário e toda a indumentária,
sem ao menos contar com a presença de um ator em cena. Aos
trinta e três anos, sem nunca ter pisado no palco antes, Copeau
entrou no universo teatral com a idéia de salvar a arte do
ator e resgatar a sua posição central na criação
artística. O desejo de reeducar o ator, de libertá-lo
de seus clichês gestuais e declamatórios, direcionou
a sua busca para a formação de sua companhia teatral
e, mais tarde, à criação de sua escola: Ècole
du Vieux Colombier.
 |
|
 |
| Jacques
Copeau e sua trupe no pátio do Teatro Vieux Colombier.
Charles Dullin (primeiro à esquerda), Louis Jouvet (em
pé, o terceiro a partir da direita) e Suzanne Bing (primeira
à direita). |
|
Foto de 1913. Atores em exercícios conduzidos por Karl
Böhm. Dullin é o terceiro a partir da esquerda. (fonte:
arquivo Eugenio Barba). |
(...)
Nessa fase, acreditava ter encontrado os três elementos fundamentais
para a recuperação da arte do ator: o espaço
do teatro grego, a improvisação da Commedia Dell’Arte
e corpo articulado do teatro japonês (Nô e Kabuki). Embora
tivesse como objetivo reeducar um ator com melhores condições
para servir um texto, estas referências foram essenciais para
o retorno dele à sua função de criador e, como
veremos mais adiante, serviu de base para o desenvolvimento da Mímica
Moderna.
A
primeira medida, referente ao espaço, foi a de retirar tudo
o que fosse supérfluo no palco e que encobrisse o ator. Ele
dizia: Nos dê um palco nu. (LEABHART, 1989:21).
(...)Vivendo
num momento em que o textocentrismo e o domínio dos autores
no fazer teatral imperavam(5),
Copeau trouxe o segundo e importantíssimo elemento: a improvisação
da Commedia Dell’Arte. Com ela, o ator criava o seu
próprio texto, tornando-se, também, autor, escultor
e escultura (DECROUX, 1955), criador e obra (BARRAULT, 1972).
 |
| Companhia
do Vieux Colombier em apresentação de Les Fourberies
de Scapin ao ar livre no Place St Sulpice, Paris, 1920. (M.H.
Dasté). |
(...)
O terceiro elemento foi encontrado estudando, principalmente, o Nô
e o Kabuki. Copeau descobriu, no teatro japonês, um corpo articulado,
treinado com uma “movimentação extracotidiana”(6)
com diversos ritmos e velocidades, longe do naturalismo. Uma corporeidade
diferente da ocidental e uma relação com o espaço
longe dos palcos italianos e elizabetanos da Europa.
Acumulando
anos de pesquisa com a sua companhia, Copeau inaugurou, em 1919, a
Ècole Du Vieux Colombier. Embora tenha funcionado
por um curto período (1919-1924), seus ensinamentos se estenderam
através de seus discípulos que formaram outras importantes
escolas e trupes. Os mais conhecidos foram Louis Jouvet, Charles Dullin,
Gaston Batty e Georges Pitoeff que formaram o Cartel des Quatre,
fundado em 1926, e que durou até a Segunda Guerra Mundial,
além da Comédiens-Routiers de Jean Dasté.
Muitas das idéias de Copeau que contribuíram para o
teatro inglês foram levadas por Michel Saint Dennis(7),
seu sobrinho, que tornou-se mais tarde diretor da Escola de Arte
Dramática do Old Vic, em Londres.
Na escola, as aulas aconteciam das nove às dezoito horas e
ensinava-se ballet clássico, método rítmico de
Dalcroze, produção vocal, dicção, canto,
acrobacia, declamação de coro clássico, filosofia,
nô, literatura, poesia e teatro, história do teatro,
escultura, figurino, improvisação e máscara (mímica
corporal). Entre todas as disciplinas, a que merece uma melhor atenção
nesse estudo é a que os estudantes chamavam de máscara,
pois foi fundamental para o surgimento da mímica corporal de
Etienne Decroux.
Segundo
Copeau, a máscara neutra foi o seu grande achado, “o
remédio” que tanto procurava para aquele ator careteiro
e declamador. (...) Ao cobrir o rosto e desnudar o corpo, Copeau propunha,
em suas aulas de máscara, que o ator se desprendesse do naturalismo
do corpo cotidiano e se abrisse para uma outra dimensão, a
das metáforas. Havia um convite aberto nessas improvisações
para a poética do corpo, das emoções e da imaginação.
Contaminado pela necessidade de enfatizar um pensamento subjetivista,
acreditava que a arte devia transcender a racionalidade do iluminismo,
colocando-se em contato com os sentimentos e intuições.
Com a máscara, Copeau encontrou a metáfora de um corpo
liberto da racionalidade e do texto literal.
(...)Copeau tinha como objetivo principal preparar um ator criador,
mas a ruptura contra os domínios da escrita só irá
acontecer, radicalmente, com um de seus mais promissores alunos e
criador da Mímica Moderna, Etienne Decroux.
