Etienne
Decroux e a mímica das metáforas
Talvez
o único mestre europeu que elaborou um sistema de regras comparável
às de uma tradição oriental. (BARBA, 1991:8)
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Etienne
Decroux em ação: Série “Esportes”
(fotos 1 e 2, por Etienne Bertrand Weill, 1948);
Série “Carpinteiro” (foto 3, por Gaston Paris). |
Paris,
no início do século passado, era um verdadeiro campo
de batalha nas artes, dos conflitos dos estilos, com vários
movimentos e manifestos. (...) Cercado por esta atmosfera, Etienne
Decroux nasceu no dia 19 de julho de 1898 e faleceu no dia 12 de março
de 1991, após ter dedicado toda a sua vida na construção
de uma nova forma de arte: a Mímica Corporal Dramática.
(...)
Até os vinte e cinco anos, exerceu uma série de trabalhos
manuais: trabalhou em construções, foi pintor, encanador,
carpinteiro, açougueiro, lavador de prato, além de ter
trabalhado em hospitais e fazendas. (...) Freqüentava o circulo
dos anarquistas franceses e, embora fosse de origem humilde, possuía
uma oratória invejável, impressionando seus amigos com
a sua verbosidade, seus discursos e foi logo apelidado de orador.
Um dia,
passando pela rua, avistou uma placa que anunciava aulas de dicção
na Ècole du Vieux Colombier. E foi assim que, em 1923,
aos 26 anos, entrou em contato com os ensinamentos de Copeau. Sua
devoção pelo teatro inspirou Decroux profundamente e,
nas aulas de máscara na Ecole du Vieux Colombier,
ele enxergou o potencial do que se tornaria a mímica corporal
dramática.
(...)Em
15 de maio de 1924, o Teatro da Vieux Colombier fechou e
cerca de quinze estudantes foram convidados para se estabelecerem
em Burgundy para se dedicarem à escola e, entre eles,
estava Decroux. Esta cruzada não durou muito tempo, pois, após
cinco meses, Copeau resolveu fechar a escola devido à exaustão
de anos de intenso trabalho e dificuldades financeiras.
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Etienne
Decroux fotografado por
Christian M. Schmocker em 1975 |
Decroux
voltou para Paris, trabalhou com Gaston Baty e, logo em seguida, com
Louis Jouvet, com quem ficou até 1925, ambos treinados por
Copeau. Em 1926, juntou-se à trupe de Charles Dullin no Téâtre
de l”Atellier, em Montmartre, onde ficou até 1934,
trabalhando como ator na trupe e como professor de mímica na
escola.
(...)
Em 1931, Jean Louis Barrault entrou para assistir às aulas
no Téâtre de l”Atellier. Jovem e entusiasmado,
conheceu Decroux e apaixonou-se pela Mímica. Ele se tornou
seu primeiro discípulo. Pesquisaram e ensaiaram intensivamente,
foram inseparáveis e cúmplices na busca de uma “mímica
nova”.
(..)
Decroux foi um ator de teatro e cinema muito ativo. Atuou em mais
de sessenta e cinco peças de: Aristófanes, Ruzzante,
Shakespeare, Ben Johnson, Moliére, Tolstoy, Strindberg, Pirandello,
Marcel Achard e Jules Romains. Seus diretores foram: Copeau, Gaston
Baty, Jouvet, Dullin, Antonin Artaud e Marcel Herrand, entre outros.
Participou de mais de trinta filmes, incluindo Les Enfantes du
Paradis, sempre com os diretores Jacques Prévert e Marcel
Carné. Esses trabalhos lhe proporcionavam condições
para continuar suas pesquisas e criações na Mímica
Corporal Dramática.
Embora
os ensinamentos de Copeau tenham acendido a chama em Decroux, foi
com este que aconteceu a crítica e a batalha radical ao “império
do texto”. Copeau queria que o ator se preparasse para servir
melhor ao texto. Já com Decroux, a conquista da liberdade do
ator estava diretamente relacionada à sua autonomia quanto
às outras artes e, sobretudo, à literatura.
(...)
Ele condenava o sistema de teatro que permitia que o texto aparecesse
antes do espetáculo ser confeccionado, ditando, assim, o seu
rumo, em que a palavra aparece sem justificativa, pois, para ele,
o ator não podia abrir mão de sua corporeidade em cena.
As palavras, segundo Decroux, não podem trazer todo o movimento
da mente, só o corpo pode concretizar as idéias, transformar
as emoções em ações físicas.
(...)
Ele depositava toda a responsabilidade da criação diretamente
no ator. Defendia a posição de que se deveria ensaiar
a peça antes de escrevê-la, pois, por mais que o autor
fosse um especialista da arte corporal, sentado numa mesa, com uma
caneta na mão, estaria incapaz de imaginar todas as possibilidades
da ação física.
(...)Decroux
ensinou por mais de cinqüenta anos e desenvolveu uma técnica
corporal única. Explorou a idéia do corpo dilatado,
que potencializa a presença do ator e a percepção
do espectador, do equilíbrio precário, em oposição
ao modo de se movimentar natural e enfatizar as tensões e a
energia de cada movimento a fim de vivificar sua presença.
Aprofundou-se nos estudos das articulações e contrapesos
(físicos e morais); desenvolveu uma complexa gramática
corporal, codificando escalas corporais simples ou complexas em movimentos
de inclinação lateral (egipciano), frontal (profundidade),
rotação e translação; dividiu o corpo
em coluna vertebral (tronco), rosto, braços e pernas. O tronco
foi desmembrado em cabeça, pescoço, peito, cintura e
pélvis, promovendo uma infinidade de combinações
de movimento entre eles; introduziu conceitos importantes como fazer
sem olhar ou olhar sem fazer, os dinamoritmos (dinâmica dos
ritmos, inter-relação de força, quantidade, duração
e intensidade), oposição, equivalência, imobilidade
ativa, espasmos (impulsos), movimentos isolados ou intercorporais,
ondulações, movimentos simples, bidimensionais ou tridimensionais,
andares, figuras de estilo, quadros de mímica, estatuárias
móveis etc.
(...)A
mímica moderna prefere o uso da metáfora a descrever
acontecimentos. Ela não ilustra ações cotidianas,
mas prefere mergulhar nos movimentos da emoção, como
quando Decroux dizia que desejava tornar visível o invisível.
A importância da metáfora para Decroux é o que
promove o rompimento drástico com a Pantomima do século
XIX, pois ela não era vista simplesmente como uma linguagem
poética, mas como uma maneira de perceber e entender o mundo
em que vivia.
(...)
Passaram pela sua escola diversos artistas: Barrault, Marcel Marceau,
Yves Lebreton, os diretores do Théâtre du Movement,
Claire Heggen e Yves Marc, Desmond Jones, o casal franco-americano
Corinne Soun e Steve Wasson diretores do Théâtre
de L’Ange Fou, o diretor belga Jan Ruts do Pyramide
op de Punt, os diretores alemães Willie Spoor e Frits
Vogels, os canadenses Denise Boulanger e Jean Asselin do Omnibus,
Gilles Maheu do Carbonne 14, os americanos Leonard Pitt,
Jan Monroe, Daniel Stein, Willian Fisher, o português Luis de
Lima, os brasileiros Luis Otávio Burnier, Natália Timberg,
Maria Clara Machado, Sabato Magaldi entre outros(8).
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| Etienne
Decroux com a figura de movimento “apanhar uma flor na mímica”
(foto de Nicola Savarese). |
Decroux
faleceu no dia 12 de março de 1991, após ter dedicado
toda a sua vida à construção de uma forma de
arte: a Mímica Corporal Dramática. No dia 13 de novembro,
comemora-se, em todo o mundo, o dia internacional da Mímica,
data proclamada no ano de 1998, pelo Instituto Internacional de Teatro
(Unesco), em comemoração ao seu nascimento. Durante
os seus mais de cinqüenta anos de ensinamento e pesquisa da Mímica
Corporal Dramática, Decroux defendeu e promoveu a Mímica,
como forma independente de arte. Considerado o pai da Mímica
Moderna, Decroux valorizava a arte de ator, livre da opressão
dos textos e, nisso, compartilhava das idéias de Antonin Artaud(9),
quando este delatava a tirania do texto, referindo-se ao domínio
dos autores literários no teatro.
Etienne
Decroux foi e continua sendo a maior referência da mímica
moderna, criador da primeira gramática corporal no ocidente
para a arte de ator, tão complexa e tão original quanto
a dos teatros orientais e do ballet. Sua pesquisa é marcante
para a formação do Teatro Físico. Entre todos
que passaram por ele, destaca-se seu primeiro e grandioso discípulo,
Jean Louis Barrault.
