Jacques
Lecoq: a aliança entre mímica objetiva
e mímica subjetiva
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| Jacques
Lecoq com a máscara neutra. (foto de capa do livro The
Moving Body). |
(...)Ao
contrário de Decroux, que defendia a mímica pura, Jacques
Lecoq entra para
este
cenário como se previsse a síntese que estava por vir
e, de fato, encorajou o hibridismo, tão característico
da contemporaneidade. Jacques Lecoq nasceu em 15 de dezembro de 1921.
Em 1937, começou a estudar Educação Física
e como ele mesmo dizia: Eu vim para o teatro pelo mundo dos esportes.
(LECOQ, 1999:22)
(...)Durante
a Segunda Guerra Mundial, Lecoq assistiu a uma apresentação
de Barrault, em que demonstrava o seu homem-cavalo, uma parte da peça
As I lay Dying de Faulkner, que atuou em 1935. Esse acontecimento
causou um grande impacto em Lecoq, como relata em seu livro:
Eu
descobri o teatro através da demonstração de
Barrault, de seu homem-cavalo. (idem, idem)
(...)A
demonstração citada despertou o interesse de Lecoq para
o teatro e mais tarde, em 1947, foi ensinar na L’Education
par le jeu dramatique (EPJD), uma escola dramática baseada
em métodos não convencionais, fundada por Barrault com
a ajuda de Conty. Ela contava com vários profissionais de renome
como Marie-Hélène Dasté (filha de Copeau).
Suas
primeiras aulas de teatro aconteceram na Travail et Culture
(TEC) com Claude Martin, que foi aluno de Charles Dullin. Lá,
Lecoq fazia improvisações de mímica com o ex-bailarino
da Companhia Ópera de Paris, Jean Séry, convertido
à dança moderna. Como seu gestual vinha dos esportes,
Lecoq começou, nessas improvisações, a relacionar
o esporte às diferentes dinâmicas de movimento do teatro.
(...)
Em 1945, ao assisti-lo em uma apresentação, Jean Dasté,
que fora aluno de Copeau, convidou-o a ingressar na companhia que
estava formando, Les Comédiens de Grenoble. Foi a
estréia profissional de Lecoq no teatro. Ele ficou responsável
pelo treinamento corporal do grupo. Através de Dasté,
Lecoq descobriu o trabalho com máscaras e o teatro Nô.
Estes dois sistemas influenciaram, poderosamente, os seus trabalhos.(...)
Ele deixou a companhia de Dasté em 1947 para ensinar na escola
de Barrault: a L’Education par le jeu dramatique (EPJD).
(...)
Em 1948, inicia uma nova fase em sua vida. Lecoq vai para a Itália,
a pedido de Giancarlo de Bosio e Lieta Papafava (dois estudantes que
vieram a Paris para estudar na EPJD). Foi para ficar três meses
e lá permaneceu por oito anos. Começou sua aventura
italiana lecionando na Universidade de Padova. Lá, descobriu
a Commedia Dell´Arte e conheceu o escultor Amleto Sartori,
que se tornou o primeiro a redescobrir as técnicas originais
de confecção de máscaras de couro dos comediantes
italianos.
(...)
Convidado por Giogio Strehler e Paolo Grassi, ajudou a formar o Piccolo
Teatro de Milão, sede da escola de artes dramáticas.(...)
Nesse período, na Itália, realizou diversos trabalhos
como diretor e coreógrafo, juntamente com importantes figuras
do cenário italiano como Dario Fo, Franco Parenti, Luciano
Berio, Anna Magnani entre outros. Apresentou-se como ator na televisão
local, atuando em diversos números de pantomimas. Em 1956,
retorna a Paris levando, em sua bagagem, duas importantes descobertas
feitas na Itália: a Commedia Dell’Arte e a Tragédia
Grega com o seu coro. Amleto Sartori deu a Lecoq um jogo de máscaras
de couro de Commedia Dell´Arte para que as fizesse
conhecidas na França afora.
No dia
cinco de dezembro de 1956, abriu sua escola ao mesmo tempo em que
começou um novo trabalho com um grupo, introduzindo as máscaras
na montagem A Família Arlequim. Em seguida, foi contratado
pelo Théâtre National Populaire (TNP) como diretor
de movimento nas produções de Jean Vilar, ex-aluno de
Copeau.
(...)Como a escola cresceu rapidamente, Lecoq
resolveu dedicar-se inteiramente a ela, já que ensinar foi
sempre sua grande paixão.(...) No início, ali se ensinava
máscara neutra, expressão corporal, Commedia Dell’Arte,
tragédia grega, pantomima branca(13),
mímica, máscaras expressivas, música e acrobacia.
Posteriormente, foi introduzida a improvisação verbal
e escrita. O caminho do silêncio para as palavras faladas deu
origem ao que se tornaria o elemento principal da escola, denominado
A Jornada.
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Apresentação
de clown do segundo ano na Escola Jacques Lecoq.
(fonte: The Moving Body). |
(...)
O estudo e treinamento do clown(14)
tiveram sua primeira aparição na escola em 1962. O universo
do ridículo e do cômico, a busca de seu próprio
clown explorado nessa fase tornou-se uma valiosíssima parte
do processo da escola, assim como as máscaras larvais(15)
que nascem nesse mesmo período. A descoberta do clown foi um
elemento fundamental para libertar o ator de seus pudores, de sua
vaidade e de sua autocrítica.
De 1968
até 1988, Lecoq foi professor da Ecole Nationale Supérieure
dês Beaux-Arts. Ali desenvolveu um programa de ensino na
arquitetura, baseado no corpo humano, no movimento e nas dinâmicas
da mímica e em 1977, fundou o departamento de cenografia dentro
da escola chamado de Laboratoire D’Etude du Moviment,
mais conhecido como LEM. Aprofunda-se, também, no estudo do
teatro a partir das relações entre o corpo e o espaço,
a arquitetura, os efeitos da cor e do espaço no espectador,
o espaço criado pela forma (objetos ou movimentos) e as dinâmicas
do movimento.
(...)
A mímica, em sua escola, é ensinada não como
uma arte separada ou independente do teatro, mas como sendo o próprio
teatro. Para ele, fazer uma mímica é uma ação
fundamental, a base de uma criação dramática,
não só para o ator, mas também para escrever
e para a performance.(...) Lecoq integra, em sua escola, a mímica
objetiva com a subjetiva, através do estudo e das relações
das várias formas de suas manifestações (...)
Embora
Lecoq nunca tenha estudado com Decroux, o fato dos dois terem sido
os maiores professores de mímica em Paris por mais de quarenta
anos, é inevitável que ambos tenham se contaminado pelo
trabalho do outro, ainda que esta relação tenha conduzido-os
a caminhos diferentes. Leabhart acredita que o ensinamento de Lecoq
tem servido como um antídoto ao ensinamento de Decroux, principalmente
no que se refere ao pensamento modernista e purista do pai da Mímica
Moderna.
Apesar
de já terem sido considerados opostos e até rivais por
alguns é fácil reconhecer vários princípios
em comum entre eles. O mais notório é que ambos mantiveram
aceso o espírito da Ecole du Vieux Colombier. Lecoq
afirma que ensinou o mímico a falar. Já formou diversos
profissionais, como Pierre Byland, Phillipe Gaulier, Claude Evard,
Phillipe Avron, Alberto Vidal, Ariane Mnouchkine, Steven Berkoff,
Luis Otávio Burnier, entre tantos. Se hoje ouvimos falar sobre
o trabalho do clown, do bufão, das máscaras, do Circo
Novo, da Mímica Contemporânea e do Teatro Físico,
devemos muito dessa responsabilidade a Jacques Lecoq.
