O Mímico segundo Luis Louis
Criador e obra, autor e ator, razão e emoção, mente e corpo, visível e invisível. O mímico, desde a sua origem, integra, sem distinção, estes elementos na sua prática, embora esta consciência só tenha aparecido recentemente com o entendimento do corpo-pensante.
Por depositar a sua confiança exclusivamente na potência do ator com o outro (público), ele nunca dependeu do Estado, da Igreja, do Império, das instituições e nem mesmo do edifício-teatro para a sua existência. Nos momentos históricos, quando a opressão e a censura tangiam sobre a liberdade de expressão na sociedade e, principalmente, nas manifestações artísticas, o mímico aparecia nos becos, nas ruas, nas praças, encontrando meios para se manifestar e manter viva a arte de ator. Por exaltar, com o seu corpo-pensante, a quebra das hierarquias na arte e na vida, ele foi perseguido pela igreja na Idade Média e associado a uma figura demoníaca. Foi expulso dos reinos, como aconteceu na França, no século XVII e XVIII, por zombar do Rei Luis XIV nas praças públicas. Manteve sua arte viva quando, na efervescência de conquistar o mundo, Napoleão Bonaparte aplicou a censura no repertório teatral parisiense, eliminando grande parte das falas nas manifestações artísticas da época. Neste momento, o mímico se levanta mais uma vez e povoa os boulevares com a sua pantomima. Após o cataclismo da Segunda Guerra, ele ressurge com a sua potência e uma rosa vermelha, para trazer uma reflexão e esperança num mundo apavorado pela destruição, como fez Marcel Marceau.
Rompendo radicalmente a divisão entre a ficção e a realidade na arte contemporânea, ele não só questiona as hierarquias teatrais, como também e fortemente, as políticas do poder. Este ser livre que tem o seu teatro, o seu governo, o seu poder, a sua força e principalmente a sua independência no seu corpo pensante, surge intensamente no Brasil e ganha seu espaço, expressando-se contra a ditadura militar. Num momento onde artistas eram torturados, exilados, Denise Stoklos explode no palco nu, com a força de seu corpo, propondo um encontro que exalta a vivacidade do acontecimento e a verdade do ser. Ataca a hierarquia dos poderes, dinamizando a arte de ator através da conquista do espaço com suas mímicas.
No cenário atual, onde a força do capitalismo com as suas misérias e guerras povoam as manchetes dos jornais, onde a repressão militar foi substituída pela ditadura da mídia e da publicidade, o que o Teatro Físico e a Mímica Contemporânea propõe acerca do corpo coloca, novamente em cheque, hierarquias, centros de poder, polaridades entre quem pensa e quem faz, intensificando a potência do acontecimento através da presença viva do ator e do seu espectador.
O mímico encontra pontos de fuga para a sua manifestação mesmo dentro das instituições e, agora, ineditamente, dentro da maior rede televisiva do país, a Rede Globo. Propondo uma outra maneira de se fazer televisão, através da minissérie Hoje é dia de Maria – Segunda Jornada, o diretor Luiz Fernando Carvalho investiu numa nova proposta artística nesse meio, acreditando na arte de ator, com a mímica para se libertar do formato naturalista das novelas, em que o ator é uma peça tão dispensável quanto era no contexto parisiense em que vivia Copeau. Contando com a parceria de Luis Louis e Tiche Vianna na coordenação desta arte, a mímica entra nesta minissérie fazendo parte de toda a linguagem dos atores e convida-nos, dentro desse cenário mundial, a exaltar a vida, o amor, a verdade de cada um dentro de uma realidade tão conturbada.
O momento é importante para que teoria e prática caminhem juntas, abrindo novas políticas culturais em frentes diferentes, nas universidades, centros culturais, teatros, mercado editorial, televisão e assim por diante.
O crescimento dos centros de pesquisa e dos eventos para apresentação das experiências tem ocorrido, mas ainda há muito por fazer no sentido de aprofundar as diversidades de uma linguagem com especificidades nas diferentes regiões culturais brasileiras. Há apenas poucos livros publicados nesse sentido.
A Arte da Mímica resiste e persiste em sua trajetória desde os primórdios da humanidade, pois nos faz lembrar e praticar algo que era tão celebrado nos rituais primitivos e continua fundamental para a nossa sobrevivência: a criação.
