A
origem do termo "Teatro Físico"
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| Desmond
Jones, professor de Denise Stoklos, Fernando Vieira e Luis Louis.
(foto: Luis Louis) |
Desmond
Jones, diretor e professor de uma das mais conceituadas escolas de
Mímica e Teatro Físico no Reino Unido responde, em aula
inaugural do intenso programa de seu curso, a pergunta mais repetida
por seus alunos nessa ocasião: Afinal, o que é Teatro
Físico?
O diretor responde(16)
de uma maneira direta que a Mímica Contemporânea e o
Teatro Físico são a mesma coisa. Segundo ele, o termo
Teatro Físico foi instituído devido às confusões
e ao preconceito de muitos, tanto do público, como dos artistas,
da palavra mímica. Isso acontece devido a esta arte ser associada
erroneamente, por muitos, ao gênero silencioso da pantomima
de Marceau e de suas cópias que se multiplicaram por todos
os continentes, como já pudemos analisar anteriormente. Por
esta razão, segue Desmond, alguns grupos começaram a
introduzir o termo Teatro Físico para a Mímica Contemporânea
que explora a arte da mímica como um ato total(17),
que une o corpo, a voz e a criação na figura do ator.
O termo
physical theatre tornou-se conhecido nas artes cênicas nas três
últimas décadas do século XX, caracterizado como
uma nova tendência teatral. Acredita-se que ele tenha surgido
primeiro na Inglaterra. Leabhart concorda com Jones ao fundir os dois
termos (Teatro Físico e Mímica Contemporânea)
e acrescenta:
Decroux,
junto com outros dois gigantes contemporâneos, Lecoq e Grotowski,
compartilhavam das mesmas idéias. Os três imaginavam
o teatro físico que não era, primeiramente, literatura
e que tinha a dramaturgia dentro e do corpo. (MIME JOURNAL, 2000/2001:149)
O Teatro
Físico tem seu período de experimentação
nos anos 60, sua consolidação nos anos 70 e 80, com
o trabalho de várias companhias, entre elas o grupo de Steven
Berkoff, o Theatre du Movement, o Theatre de Cumplicitè,
o Theatre de Soleil e outros. A partir da década de
70, a mídia passou a classificar os grupos que traziam a característica
corporal e autoral, difundida pela mímica moderna, somada com
elementos do circo, da dança e do teatro experimental dos “fringes”,
de Teatro Físico. Tal movimento rompe com o logocentrismo,
o textocentrismo e promove uma nova forma de pensar o corpo, valoriza
o ator-criador e a dramaturgia do corpo.
O termo
physical theatre passou a ser conhecido no Reino Unido no
começo dos anos 70 e foi lá, segundo Kershaw (1992),
o primeiro lugar a empregar este termo na mídia de comunicação
de massa, por meio da conhecida revista de entretenimento semanal
Time Out. John Ashford, editor de teatro desta revista londrina,
passou a influenciar críticos e jornalistas em outros veículos,
devido à classificação publicada por ele, diferenciando
o processo de criação e colocando a categoria Teatro
Físico para os espetáculos onde o corpo e a voz eram
centrais, o que o diferenciava de outras categorias como a de Teatro
de Escritor, em que o texto é fundamental no processo artístico.
(...)O
movimento das artes da atuação física, que teve
a sua base na França na primeira metade do século XX,
foi acolhido pelo Reino Unido na outra metade e devido à forte
aceitação do público, da classe artística,
da mídia inglesa e dos incentivos na produção
de seus espetáculos, fez da Inglaterra a sede do Teatro-Físico,
de onde nascem diversos grupos, festivais, escolas e cursos desta
prática.
O Teatro
Físico ou Mímica Contemporânea refere-se a um
momento em que a arte se distancia do purismo e caminha para a somatória
da mente/corpo e voz na síntese do ator-criador, que participa
de todos os momentos de criação do processo artístico,
assinando, muitas vezes, a autoria do texto teatral.
(...)
Os atores contemporâneos, alimentados por mais de meio século
de pesquisas, passam a seguir os ensinamentos do pai da Mímica
Moderna, Etienne Decroux, que na sua intensidade defendia que, se
houvesse um autor no teatro, este seria o ator. A estranha divisão
de funções feita no naturalismo com o autor sentado,
pensando e escrevendo o texto que seria entregue para o ator, que
somente então iniciaria o seu trabalho como intérprete
do texto, é a quebra mais notória do ator do Teatro
Físico, que não mais inicia seu trabalho pela metade,
como diz Denise Stoklos em entrevista realizada por Pedro Brício
em 27/10/2000:
No
meu entender o trabalho que sobra para o ator é da metade em
diante, isto é, alguém já criou aquele personagem
e ele tem que realizar bem aquilo. Não que isso seja menos,
não se pode dar uma criação de valores entre
o que é mais valoroso. Mas no meu entender é muito mais
rico, o intérprete, o ator, fazer esta trajetória inteira.
Descobrir qual personagem que ele gostaria de criar. Ele próprio
criar o contexto, que é a dramaturgia, e ele mesmo ser o diretor,
isto é ser narrador ao mesmo tempo. (BRÍCIO, 2000:47).
A atriz
refere-se ao ator-intérprete do teatro tradicional que é
direcionado pelo texto literário e a diferença do ator-criador,
que participa de todo o processo criativo. A modificação
na figura do ator-criador no processo de criação que
não se inicia por um texto, mas sim pelo corpo e na nova maneira
de pensar este corpo, será uma das grandes alterações
propostas no Teatro Físico.
(...)Mas
como definir, afinal, o Teatro Físico? Dymphna Callery arrisca:
Teatro-Físico
é o teatro onde o meio primário de criação
acontece no corpo (...) Isto não significa que a exigência
intelectual seja excluída. O intelecto é assimilado
por meio do envolvimento do corpo. (CALLERY, 2002:4)
(...) Mais adiante, Callery focaliza a entrada de alguns segmentos
da dança para o Teatro Físico, principalmente aqueles
que encorajam mais os dançarinos a criar do que interpretar,
como é o caso do grupo de dança DV8, fundado
pelo australiano Lloyd Newson, que foi a primeira companhia de dança
a usar a denominação Teatro Físico conscientemente.
O diretor responde(...)
Vários festivais de Teatro Físico acontecem por todos
os continentes, destacando o Festival Internacional de Mímica,
em Londres, onde grupos de todos os países participam anualmente
com espetáculos, workshops e palestras e que já se firmou
como uma referência para esta arte. É importante, também,
citar o Festival de Edimburgo que ocorre no verão
europeu e que conta com uma vasta programação nesta
área(18).
