Panorama
da Mímica Contemporânea
e do Teatro Físico Brasileiro
A partir
dos anos 80, a Mímica Contemporânea ou Teatro Físico
proliferou no território nacional. Cresceu fomentada, na primeira
fase, pela eclosão da mímica francesa trazida para o
Brasil por Luis de Lima e seguido por Ricardo Bandeira, que colaboraram
para o seu desenvolvimento e cujo trabalho resultou na formação
da mímica moderna no país e no mundo. Na segunda fase,
caracteriza-se com o trabalho de Denise Stoklos e Luis Otávio
Burnier que trazem, para o cenário nacional, o hibridismo da
mímica contemporânea e representada pela comunicação
da linha francesa com as pesquisas de Grotowski e de seu discípulo
Eugênio Barba. Stoklos e Burnier iluminam este segundo momento,
não só no território nacional, como também
no internacional.
Mas encontramos,
também, novos nomes. Denise Namura, por exemplo, descobriu
a mímica na França, quando lá chegou em 1979
(...) Em 1981, mudou-se para Paris, onde reside até hoje. Nestes
25 anos, desenvolveu uma linguagem artística própria.
Através da mímica, encontrou um caminho entre o teatro
e a dança. Em 1986 fundou, ao lado do alemão Michael
Bugdahn, a Companhia À Fleur de Peau. Juntos, criaram
mais de vinte espetáculos e coreografias. Embora resida na
França, Namura mantêm uma forte ligação
com o Brasil. Apresenta-se, constantemente, em todo o território
nacional, além de ministrar workshops. Com ela, aconteceu um
aprofundamento nas relações da mímica com a dança.
Os frutos das pesquisas destes pioneiros da mímica no Brasil
logo começaram a aparecer. Fernando Vieira, por exemplo, é
um desses casos. (...) A sua formação se iniciou no
Brasil com Denise Stoklos e Denise Namura. Foi lançado e recebido
calorosamente pelo meio dos mímicos quando participou do I
Festival de Mímica de São Paulo, em 1986, ao lado
de grandes nomes. No mesmo ano, foi para a Europa aperfeiçoar-se.
Estudou, na Itália, a Commedia Dell'Arte com Antonio
Fava; em Londres, mímica com Desmond Jones e David Glass, e
clown, com Philippe Gaulier. Em 1989, voltou para o Brasil onde criou
vários espetáculos(28)
e ajudou a promover o Teatro Físico. Juntou-se à Cia
de Teatro em Quadrinhos, dirigido por Beth Lopes. Foi o protagonista
e assinou a preparação corporal do elenco da premiada
montagem O Cobrador, em 1990.
(...)
Eduardo Coutinho é outro criador que vem reforçar o
rol dos mímicos que apareceram nos anos oitenta e que estão
engrandecendo esta arte na atualidade. Mestre e Doutor em Teatro pela
USP, ministra a disciplina Mímica na graduação
da ECA-USP, além de curso na Pós-Graduação.
No Brasil, estudou com Denise Stoklos, Denise Namura, David Glass
e, na França, com o Théâtre du Mouvement,
companhia formada por discípulos de Decroux. Desenvolveu sua
técnica baseada nos princípios do polonês Tomaszewski.
(...)
Algumas experiências também começaram a aparecer
fora do eixo-Rio São Paulo como é o caso de Alberto
Gaus, que trabalhou com Ricardo Bandeira no início de sua carreira,
mas vem desenvolvendo, há vinte anos, uma pesquisa pessoal
na arte da mímica. Vencedor dos prêmios Moliére,
APCA, Mambembe e Fundacem, apresentou vários espetáculos
de sua autoria, tanto no Brasil como na Europa(29).
Paralelamente à essa sua pesquisa, também desenvolveu
um trabalho com o diretor Antunes Filho, no espetáculo Paraíso
Zona Norte, no qual fez a preparação corporal dos
atores. Atualmente, coordena o Centro de Pesquisa Teatral Solar
da Mímica & Cia, na cidade de Juquitiba.
O que
se pode observar através destes nomes e centros de estudo é
que, nos anos oitenta, a mímica brasileira começou a
ganhar cara própria. Em 1986, surge o I Festival de Mímica
de São Paulo. Gabriel Guimard foi seu idealizador e reuniu,
pela primeira vez, num só lugar, grandes nomes desse movimento
no Brasil. O mímico-palhaço Guimard conseguiu, com a
parceria da Aliança Francesa e do Sesc-Pompéia, aglutinar
artistas com a mais rica diversidade, que já traziam o pensamento
da Mímica Contemporânea. Participaram dele: Paulo Yutaka,
Vicentini Gomes, Luis Otávio Burnier, Alberto Gaus, Alice K.,
Eduardo Coutinho, Lina do Carmo, Júlio Sarkani e Hugo Oskar.
O evento consolidou a força da Mímica no país
e o hibridismo tão característico do Teatro Físico
já se apresentava.
(...)
Guimard ainda organizou uma segunda versão do festival no ano
seguinte, trazendo ainda mais a diversidade como maior característica.
Guimard, que iniciou sua carreira com Burnier, Stoklos e Paulo Yutaka,
foi para a França em 1989, quando ingressou na Cia. Philippe
Genty(30). Participou
da montagem do espetáculo Derives, com o qual se apresentou
em mais de 40 países. Na França, ele descobriu a arte
do palhaço que somou a seu trabalho, ao retornar para o Brasil
em 1992.
Nos
anos 90, vários grupos no Brasil já começam a
definir seus trabalhos como Teatro Físico. A diretora Beth
Lopes iniciou esta década com o trabalho citado anteriormente
O Cobrador, com Fernando Vieira e que foi considerado uma
referência marcante para o Teatro Físico.
Em 1994,
a Cultura Inglesa de São Paulo organizou o primeiro Festival
de Teatro Físico no Brasil. A idéia surgiu quando
Laerte Mello estava na Europa, em 1994, visitando alguns festivais.
Ele procurava, junto com a Cultura Inglesa de São Paulo, alguma
forma interessante de teatro para proporcionar um intercâmbio
com o Brasil. E quando chegou ao Festival de Edimburgo, notou
um forte movimento em torno do chamado Physical Theatre.
O mais interessante, segundo Laerte, foi Denise Stoklos estar se apresentando
por lá, recebendo uma grande repercurssão na mídia.
(...)
Na década de 90, diversos grupos passaram a associar esse nome
em seus trabalhos. A mídia começou timidamente a notar
a formação desse movimento. A Cia. Fábrica
São Paulo fez uma parceria com o inglês Robert MacCrea,
conhecedor do trabalho de Steven Berkoff, que em 1998 dirigiu a trupe
na premiada montagem de A Falecida, de Nelson Rodrigues.
Se,
nos anos oitenta, o trabalho de Decroux invadiu o Brasil, nos noventa
é contrabalanceado pela pesquisa de Lecoq, trazida por ex-alunos.
(...)
Em 1999, um outro evento injetou novos ânimos nesta arte e que
reuniu diferentes gerações num só evento chamado
Mímica em Movimento, organizado pelo Sesc-Consolação.
A diversidade foi a grande característica tendo sido apresentados
espetáculos, aula-espetáculos, oficinas e improvisações.
(...) Na semana de abertura, aconteceu um ciclo de aula-espetáculo
dada por Luis de Lima, Denise Stoklos e por mim. (...) Os espetáculos
do programa foram Em Busca do Riso de Alberto Gaus, Antes
só do que Acompanhado de Cláudio Carneiro,
Linhas Cruzadas de Luis Louis, Os Sete Pecados de Fernando
Vieira e Elis Regina de Denise Stoklos. Nesse evento houve
uma grande adesão por parte dos estudantes, artistas e do público
espontâneo.
Em 2000,
o espaço para alimentar as novas experiências é
consolidado com a criação do evento Reflexos de
Cenas, por mim criado em parceria com o Sesc-Consolação.
O Reflexos, que existe até hoje, nasceu da idéia
de mostrar, discutir pesquisas e processos de trabalho na área
de teatro, dança e performance. Nos seis primeiros meses do
evento, período da minha curadoria (julho a dezembro de 2000).
O Reflexos de Cenas teve como foco o ator criador e o Teatro
Físico. Vários grupos de mímica contemporânea,
clown, dança-teatro e performance passaram por lá, entre
eles Carlos Moreno (ex-Podminoga), o mímico Victor Seixas,
o Grupo LUME, Cláudio Carneiro, Beth Lopes, Pamela Duncan,
Ângelo Brandini, Débora Serretiello e muitos outros.
Em 2001, aconteceu a Primeira Amostra Reflexos de Cenas com
ciclo de aulas, espetáculos, performances e debates. (...)
Apesar do foco não ter sido exclusivamente o Teatro Físico,
este movimento estava muito presente.
Em
2002, aconteceu o Solos do Brasil, idealizado e produzido
por Silvana Abreu e Egla Monteiro, com direção artística
de Denise Stoklos. Esse projeto teve a duração de quase
um ano e contou com a participação de dezessete artistas
vindos de diferentes partes do Brasil, selecionados entre mais de
duas mil pessoas e que mergulharam na pesquisa centrada no Teatro
Essencial de Denise Stoklos. No final desse período, cada
integrante tinha como objetivo compôr um espetáculo solo
e levá-lo para suas regiões. Tive o prazer de participar
de todo o processo, coordenando a pesquisa de mímica para o
elenco. Faziam parte do projeto Gianni Ratto e Antonio Abujamra (direção),
Ricardo Napoleão (Teatro Dinâmico-Lecoq), Eduardo Coutinho
(Texto Corporal), Caio Ferraz (Canto), Hugo Rodas (Dança),
Luiz Fuganti (Filosofia) e Denise Stoklos, que cuidava da direção
artística e do treinamento do Teatro Essencial de todo o grupo(31).
Durante os onze meses do projeto foram realizadas várias aulas
abertas, para que todos que não haviam sido selecionados pudessem
participar do processo. As aulas abertas aconteciam no Teatro João
Caetano em São Paulo e contavam com a participação
massiva do público.
Em 2005
ocorreu, em Goiás, o Festival do Corpo Ritual – Mímica,
Clown e o Essencial, um evento organizado por Nando Prado e Pablo
Angelino e que teve como foco as intersecções do Teatro
Físico. Participei desta programação ao lado
de Denise Stoklos, Tiche Vianna, Ésio Magalhães e do
Grupo Lume. A programação foi dividida em quatro fases,
e aconteceu entre junho e setembro.
A partir
de eventos, como os citados acima, somados com o aumento de intercâmbio
artístico entre o Brasil e outros países, a Mímica
Contemporânea se espalha pelo Brasil e já se começa
a identificar novos focos em todo o país voltados à
pesquisa do ator-criador.(...)
Em 2005,
o Teatro Físico chega à Rede Globo. Num projeto único
da televisão brasileira, sob a direção de Luiz
Fernando Carvalho, a micro-série Hoje é dia de Maria
– Segunda Jornada tem como base corpórea a mímica
contemporânea. O elenco passou por um período de três
meses de intenso treinamento, coordenado por mim e por Tiche Vianna.
O maior desafio do projeto foi o de sair da interpretação
naturalista tão enraizada na televisão brasileira devido
à linguagem das novelas. Todo o intenso trabalho corporal foi
direcionado em se obter um corpo dilatado, distante dos padrões
naturalistas tradicionais. Formaram o elenco desta empreitada Stênio
Garcia, Osmar Prado, Fernanda Montenegro, Juliana Carneiro da Cunha,
André Valli, Carolina Oliveira, Rodrigo Santoro, Daniel de
Oliveira, Letícia Sabatella, Rosa Maria, Ricardo Blat, Inês,
João Sabiá, Charles Fricks, Rodolfo Vaz, Leandro Castilho,
Tadeu Mello e outros, que fizeram treinamentos diários baseados
na técnica de Decroux, Lecoq, Marceau e da Commédia
Dell’Arte.
O Brasil
conta, hoje, com centros de pesquisa na área do Teatro Físico
que se equiparam aos melhores do mundo. Destacam-se: o Grupo Lume,
Barracão Teatro, Solar da Mímica e o Estúdio
Luis Louis.
