Mímica & Teatro Físico

Mímica e Pantomima

Ainda hoje, quando pensamos na arte da Mímica, imaginamos o personagem mudo, de rosto pintado de branco, com luvas brancas, fazendo gestos ilustrativos criando objetos imaginários no espaço. Mas isso é mesmo Mímica? E o que é Pantomima? O mímico fala?

Não só no Brasil, como também em várias partes do mundo, surgem muitas confusões ao se tentar responder estas perguntas.

(...) A partir do século XX, Mímica passa a designar a forma de arte e a Pantomima como um dos seus gêneros. A Pantomima, hoje, é definida principalmente pela herança de Jean-Gaspard Debureau e Marcel Marceau, caracterizada pela figura de rosto pintado de branco e luvas, contador de histórias sem falas e que comunica-se por meio de gestos ilustrativos desenhados no espaço. Tem, geralmente, fins cômicos.

No entanto, a Mímica possui uma atuação mais abrangente. Nela, o mímico utiliza o potencial de seu corpo como um todo, isto é, corpo, voz e pensamento integrados em sua expressão. Nessas encenações, podemos encontrar o drama, a tragédia e, também, a comicidade. A movimentação e a expressão não são centradas somente na mímica objetiva(1), isto é, na criação de objetos espaciais como a parede, a corda e outros, mas também faz uso, principalmente, da mímica subjetiva(2).

(...) Apesar dos primeiros registros da Mímica datarem da história grega, nos estudos antropológicos ela é encontrada na própria origem do homem e, freqüentemente, aparece associada à organização do pensamento, como propõe esta dissertação. Richard Courtney, em seu livro Jogo, Teatro e Pensamento (2001), coloca-a na origem dos ritos do homem primitivo, na figura do caçador que personificava a si próprio ou os animais em situação de caça, na ação dramática chamada mimese.

(...) Em 1890, foi encontrado um papiro, contendo treze peças de mímica de Herodas, autor grego que viveu em Alexandria, por volta de 270 a.C. Eram breves textos mímicos, chamados mimiambos, cujos enredos libertinos e com muito humor, tratavam de revelações secretas, de garotas apaixonadas e situações cômicas e proibidas. Esses textos comprovam que, mesmo no mundo antigo, os atores chamados mímicos já falavam e, também, representavam, fazendo uso das palavras(...)

Pierrot com grandes mangas por Maurice Sand

(...) O livro Recherches historiques et critiques sur les mimes et sur les pantomimes, publicado em Paris, em 1751, já indica, pelo próprio título, uma diferenciação entre os dois termos. O autor, Jacques Méricot, escreveu que a diferença básica entre as duas palavras, tão freqüentemente usadas sem distinção, era que, na Mímica, as encenações aconteciam acompanhadas de palavras. (...) Já a Pantomima era inteiramente silenciosa.

(...)Em 1750, o Boulevard du Temple, onde aconteciam os “fringe”(3) de Paris, tornou-se local oficial do teatro de rua, das feiras e praças. Tudo que era censurado de alguma maneira podia ser encontrado ali. (...) Esta liberdade, porém, tinha seus dias contados. Em 1807, Napoleão impôs novas restrições, controlando, novamente, o número de teatros, o repertório, o gênero(4). Foi nessa atmosfera que se iniciou a carreira meteórica de Jean-Gaspard Debureau em 1819, no Thèatre dês Funambules, localizado no Boulevard du Temple.

Debureau como Pierrot por Maurice Sand

Considerado uma lenda no século XIX, seu sucesso invadiu o século XX. Sua figura de Pierrot, com o rosto pintado de branco e seus movimentos estilizados, deram forma à “pantomima branca”. O povo lotava o teatro para poder assistir às histórias contadas através do corpo, sem falas. Os gestos ilustravam o imaginário, e ilusões eram desenhadas no espaço, como pode ser conferido nas pantomimas recriadas para o filme Les Enfantes du Paradis, interpretado por Jean Louis Barrault e que tanto influenciou o trabalho de outra lenda do século XX, o francês Marcel Marceau.

Mas é no século XX que a Mímica irá se desenvolver plenamente como forma de arte. Isso se deve ao trabalho de um outro francês, Etienne Decroux.

É de importância fundamental destacar que esta forma de arte que passa a explorar as metáforas da linguagem corporal, com ou sem falas, no drama, na tragédia ou na comédia, denomina-se Mímica. A Pantomima passa a ser inserida em um dos seus gêneros e caracterizada pela figura do seu performer (rosto pintado de branco, com luvas, que conta uma história por meio dos gestos ilustrativos desenhados no espaço). Tem, geralmente, fins cômicos e não possui falas.(...)

 
Pintura de Jean-Gaspard Debureau, por Michael Tomek. (Mime Journal)    Marcel Marceau em cena. (Gapilan)

(1) Nome dado a área da mímica que cria e explora as ilusões de objetos no espaço. O gestual da mímica objetiva é o mais fiel possível às ilusões criadas, isto é, nela, a parede será uma parede e a corda uma corda evitando as metáforas na movimentação. [volta]


(2) Área da mímica que explora as emoções e a sensibilidade. O gestual é centrado nas metáforas, isto é, quando se cria uma ilusão como a parede, ela não representa este objeto em si e sim um sentimento ou sensação. Neste caso a parede criada pode representar a prisão dos pensamentos ou qualquer outro estado interior.
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(3) Esse termo ficou conhecido na Europa para designar o circuito teatral não comercial. [volta]

(4) É muito provável que, devido às condições criadas na França, com as proibições impostas no reinado de Luis XIV, Luis XV, Luis XVI e repetida por Napoleão, a França tenha servido de base para o desenvolvimento da Mímica e do gênero da Pantomima. Esta arte era uma maneira de muitos artistas burlarem a opressão e se expressarem. [volta]