Mímica & Teatro Físico

O corpo pensante do Teatro Físico

A idéia do corpo pensante é a matriz principal em que se estrutura a filosofia da Mímica Contemporânea/Teatro Físico. Há um rompimento radical com a visão dualista que tanto acompanhou a nossa história e que ainda está presente no fazer artístico contemporâneo. As ciências cognitivas nos ajudam a dissolver essa separação e entendermos melhor a relação mente/cérebro/corpo, dentro/fora, que tanto afetam a compreensão em diversas áreas, e aqui, especificamente nas artes cênicas, sobre objetivo/subjetivo, razão/emoção e do novo conceito da metáfora.

Damásio (1996) acredita que grande parte dessa confusão está numa das mais famosas citações da história da Filosofia, que aconteceu no século XVII, quando o filósofo francês René Descartes (1596-1658) afirmou: “penso, logo existo” (“Cogito ergo sum”). Ele explica que o entendimento literal dessa frase ilustra o oposto daquilo que acredita ser verdade sobre as origens da mente e da relação entre mente e corpo, pois antes do aparecimento da humanidade, os seres já eram seres, já existiam. Num certo ponto da evolução, surgiu uma consciência elementar e, com isso, apareceu uma mente simples. Mais tarde, com uma maior complexidade, veio a possibilidade de pensar e, depois, de usar a linguagem para melhor organizar os pensamentos. Para Damásio, a frase deveria ser “existo, logo penso”, pois para nós, o princípio foi à existência e só depois veio o pensamento. Sobre isso, escreve:

A afirmação sugere que pensar e ter consciência de pensar são os grandes substratos de existir. E, como sabemos que Descartes via o ato de pensar como uma atividade separada do corpo, essa afirmação celebra a separação da mente, a“coisa pensante” (res cogitans), do corpo não pensante, que tem extensão e partes mecânicas (res extensa). (DAMÁSIO, 1996:279)

O Teatro Físico elimina as dicotomias, adotando a idéia do corpo pensante. Nas recentes descobertas da neurobiologia, a relação indissociável da mente/cérebro/corpo/ambiente estudada por Damásio resulta no surgimento de imagens visuais, auditiva, somatossensoriais que, em larga medida, é o próprio pensamento. Damásio, ao dizer que o pensamento é feito de imagens, explica que mesmo nas situações em que nele são incluídas palavras ou símbolos arbitrários, eles são baseados em representações topograficamente organizadas, tornando-se, assim, imagens.

(...) No processo de criação da Mímica Contemporânea/Teatro Físico, há uma intensificação dessa relação através do corpo-pensante, valorizando a escuta das imagens resultantes da relação mente/corpo/cérebro/ambiente. Numa segunda fase de organização, aparecem as palavras e a escrita.

Embora muitos autores definam emoção e sentimento como sinônimas, a distinção entre esses dois termos, feita por Damásio, ilumina-nos a uma melhor investigação desses fenômenos.

As emoções e os sentimentos são percepções diretas de nossos estados corporais e não algo imaterial que acontece fora do corpo. Eles constituem um elo fundamental entre o corpo e a consciência.

(...) Etimologicamente, a palavra emoção sugere uma direção externa a partir do corpo, pois significa, literalmente, movimento para fora. Ele vê a essência da emoção como a coleção de mudanças no estado corporal que são induzidas numa infinidade de órgãos por meio de terminações nervosas sob o controle de um sistema cerebral dedicado ao qual responde ao conteúdo dos pensamentos relativos a uma determinada entidade ou acontecimento. (DAMÁSIO, 1996:168)

Sentimento, para ele, é a percepção de todas as mudanças que constituem a resposta emocional, isto é, a experiência dessas mudanças em justaposição com as imagens mentais que iniciaram o ciclo.

A emoção e o sentimento fazem parte indissociável de qualquer processo racional, por mais fácil que seja para nós.

(...) Damásio defende que há sistemas reguladores básicos no organismo que preparam o terreno para o processo consciente, cognitivo e de tomada de decisões. Esse sistema é identificável quando, num momento de decisão, surge um mau resultado associado a uma possível resposta, por mais fugaz que seja, e você sente uma sensação visceral desagradável. Como a sensação é corporal, ele atribuiu o termo técnico “somático”. Em grego, soma significa corpo, somático, portanto, aquilo que pertence ao corpo e, porque o estado marca uma imagem, denominou-o “marcador somático”. Isto significa que a racionalidade é configurada e modulada por sinais do corpo, ou seja, ela não existiria como a “razão nobre”, pois há doses de emoção e intuição provenientes do corpo. Antes dos circuitos cerebrais realizarem uma análise mais detalhada dos fenômenos que nos afetam, o corpo já adquiriu suas primeiras emoções. Com isso, o marcador somático é uma espécie de campainha que nos avisa nos processos de decisão quando um resultado é negativo ou positivo através de um incentivo. (...) Em outras palavras, o corpo faz uma pré-seleção das inúmeras possibilidades e envia para o cérebro as melhores, a fim de serem analisadas. A simbiose entre os chamados processos cognitivos e os processos geralmente designados por “emocionais” fica evidente. Torna-se, contudo, inviável a separação razão-emoção no processo racional.

Com a idéia do marcador somático, o processo de criação, tanto nas artes como na ciência, assenta numa fusão entre a intuição e a razão. Essa união nos remete à opção experiencialista de Lakoff e Johnson que integra objetivismo e subjetivismo através do entendimento da metáfora como racionalidade imaginativa.

O corpo pensante do Teatro Físico agrega estas noções ao confiar no corpo no processo de criação. Frases usadas nas salas de ensaio como: “Escute o seu corpo”, “Confie no seu corpo”, traz, na metáfora de canal, a concepção dele como pensamento e não mais como instrumento.O fim desse pensamento dualista sobre o corpo no Teatro Físico, ocasionou uma ruptura com a forma de pensar da Mímica Moderna. Enquanto a metáfora inserida no pensamento dos modernistas era O CORPO É INSTRUMENTO, agora é O CORPO É PENSAMENTO. E, com isso, o ator não possui um corpo, o ator é seu corpo.

A figura do mímico exalta esta idéia desde o seu surgimento. Embora a consciência desse corpo só aconteça na fase contemporânea, ele pensa com ele e não por meio dele; sua movimentação é o seu próprio pensamento, sua dramaturgia é a do corpo, sua emoção, seus sentimentos e seu raciocínio estão no gesto, no andar, no busto. Seu corpo é sentimento, objeto, natureza. A relação dentro/fora é integrada e corporificada, constantemente, na interação de seu corpo com o espaço.